Red River Night Blues

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Cíntia não parava de olhar seu relógio de pulso e o da parede do laboratório. Mais duas lâminas e encerraria seu expediente. Cinco e quarenta e cinco; dez para as seis…Como sempre fazia às sextas andou apressada para o vestiário jogando no armário o guarda-pó, os sapatos brancos, a touca…pronto, estava livre.

Desceu a rampa do hospital ainda mais rápido, entrou no Corsa cinza presente de formatura do seu pai e tomou o rumo do Rio Vermelho, onde a noite já ia pelo começo. Na subida do Cristo viu lá longe as luzes do seu point e o coração deu uma leve acelerada. Acendeu um cigarro e… mas uma sinaleira onde meninos faziam velhos truques em busca de um troco. Ufa, se livrou da sinaleira do hotel. Bingo! Fechou a da Ademar de Barros. Outro cigarro ? Não, a noite seria longa, pensou. Arrancou passando na frente de um idiota que insistia em falar ao celular. Curva da Paciência e já foi procurando uma vaga. Estacionou a viatura e procurou na memória: JC. Porra, o cara não atende; dia de sexta é foda.

Cíntia não queria chegar de cara no barzinho. Do outro lado da rua já dava pra ver os chatos reunidos, aquela mesma turma de sempre. Sentiu a vibração dentro da bolsa e aquelas duas letrinhas azuis brilharam no display. Alô, cadê você rapaz ? PeloamordeDeus… venha logo brother.

JC era rápido e nutria um tesão por mais aquela cliente.Seu tipo ! Acreditava ele. Cíntia era ligeiramente loura; nem gorda, nem magra, embora estivesse mais para magra…assim, meia mingnon, de olhos grandes e claros, mas brilhantes demais quando estava travada.

Porra, meu velho, demorou. Valeu… deixe essa porra desse celular ligado, falou ? E foi ali, na chave… uma em cada napa. Fui ! Atravessou a rua se misturando aos carros e luzes de mais uma noite do Red River. Mas seu coração dizia que hoje seria diferente e se sentiu super sex rebolando a bundinha na hora de atravessar o engarrafamento.

Colé, Cíntia…Ei, gata…e foi entrando no boteco com um resto de sorriso congelado no rosto. Eu quero é dançar, porra! Gritou bem alto e ficou mais excitada percebendo que ninguém ouvia porra nenhuma.

O dancing tava fervendo e de repente começou a tocar Good Luck com Vanessa da Mata. Porra, música lenta; que merda. Mas lá no fundo da pista um carinha se retorcia todo e Cíntia chegou perto, toda se bulindo também. O boyzinho começou a prestar atenção nela e sua expressão corporal sofreu uma leve mudança. Cíntia fez que não viu e continuou rebolando, estudando a situação.

Um minuto depois os dois no balcão já davam aquelas risadas que só os consumidores daquela mistura de gesso, bicarbonato de sódio, pó de parede e, sabe-se mais o quê, se permitiam. Rolou o primeiro beijo e a língua de Cíntia percorreu o céu da boca do cara, a tempo de sentir aquele gosto tradicional. Vamos no banheiro, gatinho ?

O segurança da casa já conhecia Cíntia, mas fez que não viu quando os dois entraram no banheiro das mulheres. Mais beijos e os dois sacaram os papéis quase ao mesmo tempo.. Cada um deu um teco no do outro. Bateram na porta quando ele começava a abrir o zipper dela. Saíram rápido do bar e a noite tava ainda mais bombada, de carro, de gente, de sons. Tem uma banda de um primo meu tocando na ladeira…vamo ver ?

Mas as ondas da maré de quase março chamaram a atenção dos dois e dois minutos depois já estavam sentados na balaustrada do Sesi com a maresia umedecendo ainda mais seus desejos. Uma nuvem encobriu a Lua e aproveitaram para descer nas pedras. Olha, uma loca ! Cê ta louco, cara ? Uhuuhhh. O lugar era perfeito: as ondas não chegavam ali, de onde só podiam ser vistos por quem estava no mesmo ângulo.

Cíntia ficou de costas para as pedras e se sentiu a própria sereia entregando-se aos ímpetos de um Netuno qualquer e gritou na mesma hora em que uma onda enorme bateu forte contra os arrecifes. Depois botou a cabeça no ombro do seu Netuno, que insistia em se atirar ao mar, não fosse o convite dela para mais um teco. Voltaram felizes e fungando à rua, quando um carro cheio de patricinhas parou em cima do passeio. Ahêê, Zezé, vai rolar a festa na casa daquele seu amigo de Piatã. Vamo nessa gata ? Vou não, bichinho…mas fica à vontade, tá. Já valeu demais. Uma troca de olhares na velocidade da lluz selou o desencontro.

Cíntia tomou o caminho do Largo de Dinha mas decidiu subir aquelas escadas super familiares onde muita gente já flanava no balcão dos singles. Pediu um uísque ao seu garçom preferido, sentou numa mesa lá do fundo do bar, acendeu um cigarro e sacou o celular. Não, né nada não… por enquanto. Só pra saber se cê ta na área… Tomou um gole e saiu em direção ao banheiro.

Bares são todos iguais ? Pensou-perguntou Cíntia, e vasculhou com o olhar todos os ângulos do boteco. As pessoas são todas iguais ? Percebeu o vácuo existencialista da sua breve viagem e …pam ! Já sei…só mais outro tequito e me pico pro Mercado. Quero ver gente, porra ! Já estava próxima do banheiro quando deu de cara com uma galera conhecida e animada. Vamusss pra onde ? Pro Mercado, gritaram todos.

O estacionamento do bar tava a maior limpeza e foi só pam ! pam ! E Cíntia subiu a rampa pra rua cantando um pouquinho de pneu. Meteu na João Gomes fez a curva de Regina, acendeu um cigarro e a galera do outro carro fazia sinais. Legal ! E a noite ta só começando…

No Mercado, a muvuca de sempre: trezentos carros com fundo aberto tocavam pagodes misturados à nova onda das praias e travessias do ferry-boat – hiprocha, uma mistura de rap com Arrocha. Corta para a mesa da barraca de Mazinho. Ih !!! Olha quem taqui ! As meninas da Casa da Bota ! Beijos e mais beijos e Cíntia mete a mão na bolsa com seus dedos ágeis procurando em meio a batons, cigarro e…achou. Segurou o papel com a ponta dos dedos quando uma leve dúvida assolou sua cabecinha.

Tá todo mundo legal. Resolveu dar um tempo. Vamo beber galera ! Mas não adiantou muito: a alegria veio e se foi como aquela onda que subiu o rio empurrada pela maré, balançando latas e outros detritos, que cedo ou tarde iam descer novamente pro mar. E a maré de Cíntia sentiu uma leve baixa. Tô olhando demais pro outros… eu quero é a mim ! Levantou da mesa já no ritmo da fusão pagodeira e de copo na mão. Não, copo na mão é breguíssimo! E bebeu com vontade a caipiroska cheia de açúcar, gelo e vodcka de procedência duvidosa.

Virou pro lado e viu na outra mesa aquele jornalista, Lulu, que já gostou do reggae, parou, voltou e agora teca sozinho pra depois ficar fazendo cara de bad-boy na boate do bairro. . Bundão ! Falou alto quando o cara desviou do olhar dela. E aí meninas ? Como é que tá a noite ? Perguntou por perguntar. Deuzinha e Luana eram só alegria dando em cima do gordinho com cara de quem tinha mais que energia prá gastar.

E Cíntia sentiu outra baixa. Teve a impressão de que seu cérebro tinha dado uma volta completa dentro da cabeça. Seu pescoço não mais obedeceu à cabeça e seus olhos focaram lá longe, por cima das árvores, o letreiro néon- verdão da igreja: “Arrependei-vos e Credes no Evangelho” . Quando voltou a olhar para o lado do mar, as letras pareciam que haviam se mudado pra lá e Cíntia sentiu pela primeira vez um leve enjôo. O celular vibrou e, sem tirá-lo da bolsa pode ver mais que duas letras no dial.

Nem pra JC aparecer agora. Vou ligar praquele viado. Mas antes, como num reflexo, seu olhar voltou a fitar o luminoso da igreja. Cíntia levantou e foi discar pro cara lá perto do resto de grama da beira do mar. Porra, na caixa !. Tentou mandar uma mensagem e, incrível, o néon da igreja tava lá, refletido no visor do telefone.

Pela primeira vez na noite Cíntia olhou pra si mesmo. Que porra eu tô fazendo aqui ? Saiu dali assim…meio sem direção. O banheiro era a melhor direção. Melhor o cheiro daquela merda do que o da merda e mijo do WC. Olhou o papel e decidiu acabar com tudo de uma vez. Porra, que largata ! E quase derrubou um terço da fileira. Mandou ver e abriu a porta. Que susto. O Mercado estava lá, a música estava lá, os carros estavam lá …mas, e as pessoas ? Cadê todo mundo ? Percebeu um alvoroço de gente correndo em direção à igreja e enxergou o luminoso lá no alto do templo, só que agora gigantesco e brilhando bem mais. “Arrependei-vos e Credes no Evangelho”

De repente se pegou correndo, atravessando a rua sem ver os carros. Que carros ? Agora era só a multidão correndo e sumindo no beco da igreja. Meu deus, tô desorientada ou é impressão? Mas aquilo era real demais, hiper-real.

Mal entrou no beco e uma luz verde intensa iluminou todo o pórtico da igreja. Cíntia foi na direção dos degraus mas, bem ali, juntinho, enxergou a mesa com duas cadeiras e uma cerveja aberta em cima. Suas pernas bambearam e ela quase se atirou na cadeira. Tudo muito rápido e seus dedos já percorriam a bolsa; e o que ela pensou ser um papel era, realmente, um papel. Um telefone anotado. Sua visão estava embaçada ou havia fumaça, névoa no beco?

E eis que de dentro das trevas surgiu um vulto, e ela gritou com todas as forças: Jotacêêê ! O vapor trazia algo debaixo do braço, que depositou sobre a mesa. Pronto, Cíntia terminara de sair do corpo pela primeira vez. Meu Deus, será que tô morrendo ? De repente percebeu que estava folheando o Jornal dos Concursos ….pousou o olhar na seção PRECISA-SE e achou que estavam oferecendo o seu próprio emprego. Sacudiu a cabecinha bem feita e quase beija a barriga do verdadeiro, do único JC, que já lhe oferecia o velho truque de sempre, das noites de sempre: o maço de cigarro com a porra dentro…..Atravessou o beco, já cheio de gente, e foi em direção ao banheiro do boteco.