Apesar do Brasil ser destaque mundial no potencial de água doce, com cerca de 10% das reservas do Planeta, esta quantidade não oferece as condições de qualidade necessárias ou exigidas pelo consumo humano.
O desperdício, a falta de cuidado com as nascentes, a poluição, o desmatamento e o mau uso, interferem na garantia do direito à água como bem vital. A desigualdade no processo de distribuição começa com a falta de racionalidade no uso, seja doméstico ou industrial, e tem visibilidade máxima de carência da zona rural, onde em regiões do semi-árido nordestino, por exemplo, pode-se constatar a importância de cada gota e copo de água necessários à vida.
Os seis bilhões de habitantes do Planeta Terra que dependem da água para garantir a vida, parecem ainda não ter se dado conta da importância do uso racional deste precioso e escasso líquido. A diferença entre oferta e consumo é muito desproporcional, desequilibrada, desigual. Enquanto o consumo médio per capita do europeu é de 140 litros /dia e do americano de 250 litros /dia, na região do Brasil chega a ser 250 litros por semana, quando há o oferta.
As bacias hídricas da América do Sul dependem do curso do degelo das calotas polares,das chuvas e das condições climáticas do Planeta. O desmatamento, a degradação das matas ciliares, a intensificação do processo de erosão, as estiagens prolongadas, a poluição, entre outros fatores impedem a retenção das águas nos lençóis freáticos e causam a morte de nascentes, que alimentam pequenos e grandes rios de Bacias, como a do Prata. O trabalho de recuperação e preservação dessas nascentes deveria ser prioridade do governo, através de parcerias com os proprietários de terras onde existe esse potencial hídrico.
Cidades importantes do Brasil, como Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro, buscam novas fontes de água a distâncias muito grandes, de até 100 kms e isto encarece o custo de captação. Estas cidades têm potenciais hídricos riquíssimos e históricos como o Tietê, em São Paulo. A falta de cuidado e a degradação dos mananciais inviabilizam o seu uso. Se esta lógica irracional tiver continuidade buscaremos a água cada vez mais longe, a custo cada vez maior, e comprometeremos recursos hídricos que deveriam servir a uma população, em detrimento de outra. O custo de energia para a transposição de água é muito alto. Num país onde o potencial hídrico, eólico e solar é imenso, é irracional e desumano capitalizar infra-estruturas complexas como o de levar água de um lugar para o outro.
São inúmeras as dificuldades que os pequenos agricultores encontram para irrigar suas terras. Embora tenha água no subsolo é difícil e cara a captação. Na zona rural do Nordeste baiano, por exemplo, onde há longos períodos de estiagem, o povo sabe o valor da água doce e aprenderam a fazer dela, de forma racional, sábia, como todos deveriam fazer. Na Lagoa do Urubu, em Tanquinho, região de Irecê, Bahia, por exemplo, basta ver uma esperança de chuva no vento forte, com nuvens escuras, relâmpagos e trovões para dona Raimunda correr e colocar os tonéis em baixo das calhas dos telhados. Esta água doce, da chuva é considerada nobre, e só usada para beber e cozinhar, enquanto que a água que cai da torneira, salgada, fruto da captação feita por bombas elétricas a custos altíssimos, é usada para outros fins. Dina Raimunda toma banho com uma bacia em baixo do chuveiro para que esta água do banho, mesmo com sabão, de preferência neutro, seja utilizada para a regar as plantas. Na pia de lavar prato de dona Raimunda, o neto está instalando um cano que vai direto para os pés de algodão, babosa, mamão…
Isso acontece porque tem agricultor na região que já furou tanto a terra pra irrigar os tomatões cultivados com agrotóxicos, que as roças mais parecem queijo suíços de tanto buraco que tem. Como demora chover e quando chove é pouco a água fica escassa e este agricultor, criminoso, com certeza irá procurar outro canto para espalhar seus venenos. Gente, como os filhos e netos de dona Raimunda, lutam contra este quadro e sonha em instalar um catavento, uma placa de energia solar, uma cisterna, e outros meios alternativos para dar continuidade aos seus projetos de agricultura familiar.
Pode ser a gota d’água…
Enquanto isso não acontece, dona Raimunda briga com cada um que desperdiça a água que ela tanto sabe dar valor. A família não tem um porto seguro para guardar as águas que vem das chuvas e eles, cada um deles, alimenta no coração e na alma, a esperança de que São Pedro não os abandone a cada nova safra. É triste ver as plantações de milho da família de dona Raimunda ser comida pelo gado, como ração, porque os pés não vingaram, as espigas não cresceram, ou foram comidas pelas lagartas, por falta de chuva, de terra molhada. Mas a grande esperança em São Pedro é alimentada a cada nova mexida na terra, a cada pegada de enxada para revolver as raízes e aproveitá-las como adubo para um novo plantio.
*Liliana Peixinho é jornalista ambiental, Fundadora do Movimento Independente AMA – Amigos do Meio Ambiente. Coordenadora da REBIA–Nordeste, Autora do Livro Virtual “Por um Brasil Limpo”.





2 comments
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março 16, 2009 às 11:30 pm
Lol
the water is the best of the world!
março 18, 2009 às 7:11 pm
lol
lol!!!!!!!!!!