Ó Tempo Rei! São Pedro lembra a Copa de 58, nas ondas do rádio que iam e vinham com chuás, feito ondas do mar, e sonhamos com a bola de Didi, Garrincha e Pelé, em tempos de Dunga. João Gilberto e seu violão aplaudidos de pé em NY; aqui, quebramos a bundinha e achamos ele um chato. Brasília já foi uma esperança e as lambretas, uma novidade urbana.

Hoje, a ‘novacap’ virou ninho de corruptos e as motos instrumento de morte nas vias. Oh tempora, oh mores! A polícia diz que tá com medo. Que dirá eu! Mal chega a noite, as ruas do centro antigo da cidade se enchem de jovens botando fogo nas pedrinhas malditas, pondo fumaça pelas ventas.

Findo o forró junino, o abandono no Pelourinho assombra gringos e nativos. Que os caboclos do 2 de Julho nos protejam. Quando Hélio Machado foi prefeito, as marinetes foram substituídas por ônibus elétricos, com uma haste que encostava nos fios e às vezes escapulia e o bicho parava. Sai prefeito entra prefeito, a população vê encabulada os monstrengos de cimento armado no Bonocô e anda já empapuçada do tititi desse metrô a cada campanha eleitoral.

Dezenas de famílias sem teto e sem nada dormem sob as marquises da avenida, embolados pra agüentar o frio. Os belos gradís de Carybé no Jardim da Piedade servem de varal para molambos. Ó tempos, ó costumes! Os políticos disputam cargos na Petrobrás como se a empresa fosse casa de mãe Xica. Será? A índia tia mata a índia sobrinha deficiente empalada, por ciúmes, mas é inimputável.

O porreta bebum ao volante atropela meia dúzia, paga fiança e tchau, é autoridade. Os presídios estão entupidos de pobres maconheiros, sem julgamento. E tome-lhe obra, tome obra no juízo do cidadão até ele acreditar naquilo que quase nem vê. Saudade dos tempos de concerto na Reitoria da Ufba, as oficinas de dança, os seminários de música, João Augusto agitando o Vila Velha, Glauber Rocha berrando uma nova estética. Estética, ética, que disse?

O povo nem sabe o que é isso, falou o presidente, convicto. Olhe a inflação! Que tal, vamos às compras, tem grife no balaio da liquidação! Cultura é coisa da zelite e nóis é sindicalista. Vamos tomar uma que o poder merece um brinde. Nos portões do hospital Menandro de Faria, na Estrada do Côco, em Lauro de Freitas, único que atende de Itapuã ao Litoral Norte, baleados e acidentados mofam do lado de fora, na chuva, à espera de atendimento, e as mulheres prenhas gemem a madrugada inteira pelos corredores sem ninguém para dar uma luz.

Acudam! Os pastores berram alucinados por “Deeeus!” nos templos cacete-armados de bairro, como se o Todo-Poderoso fosse surdo ou andasse meio leso. Oh tempo, tempo, senhor de todos os destinos! Na esquina, uma guria de seus dez anos, coquete, shortinho enfiado, mexe o rabinho ‘inocente’ no ritmo do alto-falante do carro de fundos arreganhados que estoura ouvidos com a “pérola” cultural vigente: “desce, desce com a mão no tabaco!” Deus meu, que será de quem sempre acreditou no amor, no sorriso e na flor? Sonhei, sonhei.

Zé de Jesus Barreto é jornalista, e dos bons