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Quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em solenidade recente em Salvador, com as presenças do presidente da Senegal Abdoulaye Wade e do governador Jaques Wagner no Dia Mundial da África, passou uma significativa parte de seu discurso se referindo a importância da capoeira; seus atores e o saldo positivo que a arte-luta nascida nos canaviais do Recôncavo da Bahia, trás para a imagem da cultura do Brasil e, segundo ele hoje praticada “em mais de 170 países”, não vimos no palco, nem na platéia de um mil e quinhentos lugares do Teatro Castro Alves, nenhum dos tradicionais mestres baianos da arte citada pelo presidente. Estaria ele e seus assessores, na frente da Fundação Palmares, o “braço afro” do Ministério da Cultura e organizadora do evento?

Quantos mestres baianos e do Brasil, têm em seus passaportes dezenas de carimbos, para levar a capoeira ao mundo, mas, ao retornarem, vivem em condições precárias? Uma contradição com a dignidade e conforto com que são recebidos nas universidades internacionais onde lideram grupos e academias com estrutura dificilmente encontradas aqui! Respondendo a esta pergunta e corrigindo este erro cruel como a escravidão, de onde surge a capoeira, a Associação Brasileira de Capoeira Angola, ABCA – fundada em 1987 por mestres como João Pequeno de Pastinha, Paulo dos Anjos, Valdemar da Paixão, Boca Rica, Ferreirinha de Santo Amaro, Nô, René, Curió, Papo Amarelo, Calazans, – se organiza para lutar por uma lei que existe desde 2002,  já em vigor apenas em Pernambuco, Alagoas e Piauí. A Lei do Patrimônio Vivo. Organizam-se para dar uma contribuição no sentido de que equívocos como estes cometidos no evento de lançamento do Festival Mundial das Artes Negras, não mais aconteçam. Para que as palavras do presidente Lula não estejam à frente das ações locais e nacionais.

Em 1966, quando foi realizado o primeiro festival em Senegal, que hoje nos homenageia, o Itamaraty convidou Olga de Alaketu, Camafeu de Oxossi e Vicente Ferreira Pastinha com seus alunos, entre eles mestre João Grande, homenageado na Casa Branca e hoje a meu pedido, o único convidado oficial representando a capoeira, para o FESMAN 2009.  A ABCA, com apoio da prefeitura de São Francisco do Conde, um portal da cultura e das tradições do Recôncavo Baiano; de deputados e vereadores comprometidos com a cultura popular, abrem os caminhos para tirar o nefasto atraso do reconhecimento dos mestres dos saberes, com seus violeiros, repentistas, mestres de saveiros; da culinária; das danças; dos bumbas-meu-boi; mestres dos artesanatos; da capoeira. A capoeira substantivamente reconhecida pelo presidente Lula na Bahia. Preparam o Fórum que deverá redigir o texto da lei que será entregue ao governador, em solenidade com convidados que cultuam a beleza das manifestações populares.

*Lucia Correia Lima – luciacorreialima@hotmail.com é jornalista, fotógrafa, roteirista e capoeirista.
Publicado no jornal A Tarde – Opinião de 27/12/2008

As mudanças deram resultado, não apenas em termos financeiros e na própria mudança em se encarrar o jornal Correio (antigo Correio da Bahia), veículo que este que vos fala dedica algumas horas do seu tempo e alguns neurônios também.

Vocês devem lembrar da reformulação da versão impressa do Correio, em agosto de 2008. O projeto gráfico fora elaborado por Guillermo Nagore, designer do The New York Times. Sairam do standard para o berliner. Minha crítica está aqui.

Bom, para alegria de tod@s na redação do CORREIO, a reformulação na versão impressa rendeu ao jornal a medalha de prata na categoria de melhor remodelação visual pela tradicional Society for News Design. Vale ressaltar que esta foi também a única medalha concedida a um veículo brasileiro nesta edição do prêmio.

Confira algumas primeiras páginas do CORREIO:

O prêmio internacional coloca o jornal baiano à frente de publicações internacionais de renome, como a Chicago Tribune, dos Estados Unidos, e o Clarín, da Argentina. A medalha de ouro foi recebida pelo jornal semanal português Expresso.

A Society for News Design, sediada em Syracuse, nos Estados Unidos, foi fundada em 1979 e premia trabalhos na área do jornalismo visual. Mais de 2,6 mil membros fazem parte da organização, em 50 países.

Neste vídeo as mudanças foram apresentadas

A cerimônia de premiação será realizada em Buenos Aires, nos dias 24 a 26 de setembro, quando também será lançado o catálogo de luxo da edição deste ano, com todas as páginas e jornais premiados.

É isso, parabéns ao jornal e aos seus repórter. Agora (puxando a sardinha para o lado do site, onde trabalho), quem sabe em 2010 o site do CORREIO seja premiado…

Tempo bom em que andar de puteiro em puteiro fazia para bem a saúde

Jolivaldo Freitas

Quem é de hoje não consegue entender ou visualizar uma Salvador, onde se podia andar nas ruas altas horas da madrugada ou mesmo dormir no banco da praça, caso perdesse o ônibus - pois ônibus só circulava até as dez da noite e quem perdesse só conseguiria outro às cinco da manhã -, sem ser molestado, não sofrendo assalto ou qualquer tipo de agressão. Pelo contrário, tinha sempre alguém que encostava e perguntava se estava tudo bem, se precisava de alguma ajuda. Era uma cidade civilizada. Ladrão, quando tinha, era ladrão de galinha e todo mundo sabia o nome. Somente as fofoqueiras de plantão, que madrugavam pata tomar conta da vida dos outros é que infernizavam. Lembro de seo Callado chegando em casa com o sol raiando, se arrastando de bêbado e feliz, levando ramalhetes de flores, compradas nas Sete Portas, para dona Railda.

E as fofoqueiras dizendo:

- Coitada de dona Railda. Não merece um marido vagabundo e sem-vergonha assim.

Mas, ela chegava, recebia as flores, fingia contrariedade, tirava a roupa suada do marido e só Deus sabe o que acontecia depois. Ela estava sempre com um sorriso no rosto e nunca ligou para fofoca. Callado, hoje, fica pescando siri na Ribeira. Dona Railda já se foi, coitada. Mas foi numa boa.

Daí que a maior diversão para a garotada, nesta cidade que era uma imensa província, e para os marmanjos de todas as idades, era freqüentar os bregas no centro e na Cidade Baixa. As noites, principalmente nos finais de semana, eram agitadas, com o vai-e-vem dos homens em busca de uma saia, um par de pernas, um aconchego. O pessoal andava de brega em brega, para ver as novidades e não repetir mulher, pois aí já virava “compromisso”. Se o cara fosse para a cama três vezes com a mesma mulher ela já virava sua “amante” ou “favorita” e quando ele chegava, ela saia do colo de qualquer um, em posição de respeito. Mas, também, ai dele se procurasse outra mulher da casa. Era passível de levar uma Gillete na cara.

O pessoal andava, evitando sujar o terno de linho branco, de um ponto a outro. Saia da Gamboa e ia para a Montanha; da Montanha para a Conceição da Praia, da Conceição da Praia para a Nossa Senhora da Ajuda e outros. Os bregas mais famosos eram o Maria da Vovô, o Meia-três e um da Gamboa que não lembro o nome e outro lá na Gameleira. Também tinha puteiro para todo tipo de bolso. Quem tinha grana, dava uma passada antes no Varandá, para ouvir música e comer bem antes do lufa-lufa. Ou ia para lá depois do esbórnia. Quem não tinha lá essa grana toda corria o risco no Maciel ou na Ladeira da Misericórdia e Ladeira da Montanha ou na rua do Aliança. Tabaris era coisa de luxo e para poucos, tanto que tinha de estar trajado a caráter. O lugar era tão bom de música, comida, bebida e prazer que as próprias putas quando fechavam o negócio iam para lá se divertir.

O movimento intenso do vai e vem entre as buates, como a Cloc e o Anjo Azul ou cassinos, era determinante para saber das novidades: quais as casas que estavam com meninas novas. Qual a francesa que tinha chegado, qual a argentina que foi contratada ou uma polaca, sendo nestes tipos as mais procuradas. E cada novidade custava os olhos da cara e os jovens que viviam de mesada, de arranjos ou de biscates, só podiam olhar, enquanto tomava um Cuba Libre com bastante gelo para refrescar a cabeça. Era tudo mais simples.

No próximo final de semana Salvador sediará a primeira edição do BlogCamp-Bahia. Um encontro de blogueiros da Bahia e de outros estados, que vai promover o intercâmbio de experiências e projetos que envolvem esta nova mídia. O evento acontece entre os dias 21 a 23 de novembro, na Faculdade 2 de Julho.

O Blogcamp-Bahia vai reunir profissionais de diversas áreas – como empresários, publicitários, jornalistas, policiais militares, designers, analistas de sistema e dentistas – que utilizam blogs para discutir experiências profissionais, acadêmicas, pessoais e debater os mais diversos assuntos.

O principal eixo temático do evento será o debate sobre os novos modelos de comunicação após o surgimento da internet. Além disso, a programação conta com desconferências (debates livres), oficinas sobre podcast, ferramenta para blogs, marketing viral.

Durante o evento também acontecerá a palestra sobre mobilidade e produção de conteúdo, apresentada por Bia Kunze – consultora em tecnologia móvel, colunista da rádio CBN e autora do blog Garota Sem Fio [ www.odontopalm.com.br/gsf ].

Na Bahia, estima-se que existam mais de 500 blogs em atividade abordando diversas temáticas. A capital baiana é o núcleo de produção blogueira do estado. Em relação ao perfil dos blogueiros, observa-se a predominância de profissionais e estudantes das áreas de comunicação, design, letras e tecnologia.

Para se inscrever no BlogCamp-Bahia, basta acessar o site do evento [ http://blogcampba.blogsbahia.com.br/ ] e levar um livro para doação no dia do credenciamento. As inscrições são limitadas. O evento é organizado pelo Grupo BlogsBa em parceria com a Universidade Estadual da Bahia (Uneb) e a Faculdade 2 de Julho. A agência RIOT, o portal JáCotei, o BlogBlogs e a Axe patrocinam o evento.

Ação Social – Cientes da responsabilidade social, o BlogCamp-Bahia fará um campanha, em parceria com a Faculdade 2 de julho, para arrecadação de livros com o propósito de criar bibliotecas públicas em escolas estaduais, proporcionando e incentivando a leitura nas comunidades mais carentes de Salvador.

Para isso, o ingresso será trocado por livros novos ou usados. Cada livro dará direito a um ingresso, mas as doações adicionais podem ser feitas durante o BlogCamp-Bahia.

Programação

Abertura – Dia 21 (sexta-feira) às 19h, no auditório da Faculdade 2 de julho
Dia 22 – início dos debates às 8h
Dia 23 – dia livre

Serviço

Blogcamp-Bahia
Quando: 21 a 23 de novembro
Onde: Faculdade 2 de Julho, Avenida Leovigildo Filgueiras, n° 81, Garcia – CEP 40.100-000 / Salvador – Bahia – Brasil
Inscrição: 1 livro (novo ou usado)
Mais informações: http://blogcampba.blogsbahia.com.br

Contatos

Yuri Almeida (Jornalista e Blogueiro): [71] 9249-1048 / [71] 8829-3132
Eduardo Pelosi (Jornalista e Blogueiro): [71] 8806-3289

Preseervação
Liliana Peixinho*

Que escolas, agências de publicidade, empresas e perfis de consumidores realmente estão colocando em prática atitudes de mudança no consumo em nome da preservação da vida?  Visito faculdades, empresas e instituições que têm projetos ditos “sustentáveis”,  mas  que não passam das idéias. Dê-se o cuidado de parar nos corredores onde ficam os coletores de resíduos, por exemplo, e se olhar, com cuidado,  verás que o plástico está no vidro, o vidro no alumínio, o alumínio no orgânico e por ai vai. Visite um supermercado, uma casa de material de construção civil ou uma loja de eletrodomésticos e terás o termômetro exato do quê continua sendo oferecido para atender às demandas de um modelo de consumo incentivado pela publicidade, ainda comprometida com o capital do século XX. O discurso continua distante da prática.

Mais do que entender os efeitos negativos provocados pelo Aquecimento Global e as grandes catástrofes verificadas nos últimos anos, está faltando ao Ser Humano entender, interiorizar, absorver, no coração, alma e cérebro, que a felicidade em Ser pode estar na busca do encontro com o outro. E que para isso é necessário caminhar nessa direção, enfrentar  obstáculos, abrir mão de comportamentos egoístas, imediatistas, superficiais e meramente repetitivos, convencionais, para transgredir, subverter e quebrar  regras milenares em nome da dinâmica natural das leis do Universo, com renovação, invenção, criatividade,  compromisso e prazer em fazer.

Quando a didática de escolas públicas, particulares e comunitárias,  passar a ter compromisso com a informação como instrumento de poder para a transformação, e não como subsídios estatísticos de não evasão ou aprovação de alunos para atender justificativas de recursos alocados em rubricas do Governo, poderemos estar no começo das mudanças que a Humanidade necessita para ir ao encontro de si mesma. Por enquanto continuamos registrando a lamentação de pais que se esforçam, se escravizam e se sacrificam, para tentar educar  filhos, na formalidade convencional, onde  investimentos feitos não  apresentam  retornos qualitativos no sonho de qualquer pai ou mãe: ver seu filho ou filha no caminho de estar a serviço de construções coletivas harmoniosas com o Universo, servindo ao outro.

Como uma filha poderá deixar de querer ter 100 pares de sapatos se a mãe compra um a cada novo mês?.   Como um aluno poderá deixar de lanchar sanduíche de salsicha com coca-cola se a escola não tem uma cantina com alternativas alimentares ? Como uma faculdade poderá realmente propagar que tem um projeto ambiental que prega a sustentabilidade se os seus coletores seletivos ainda de plásticos, convencionais, não coletam seletivamente, como informa a plotagem?  E mais que isso, se a própria  instituição faz de conta que ensina para um aluno que também faz de conta que aprende? Como pode uma secretária do lar aprender a não desperdiçar alimentos se a própria dona da casa, na mesa familiar,  enche o prato de comida e não come nem metade do que se serve?  E como poderemos substituir o petróleo por energias alternativas se ainda vamos às lojas de 1,99 alimentar a paradoxal cultura  chinesa que transita entre a conservação de tradições milenares, como o uso dos chás,  e o crescimento rápido no uso de tecnologias  de ponta para a produção de descartáveis?

Enquanto existirem ONGs, Institutos, Associações, Oscips e Fundações que precisem gastar, às pressas, rodos de dinheiro recebidos do Governo brasileiro ou de fora do Brasil, fazendo qualquer coisa para apresentarem seus relatórios técnicos de visibilidade duvidosa,  convênios, contratos e acordos de parceria  estarão sendo renovados  a longo prazo,  já que a burocracia é a grande inimiga da justiça social,  perseguida, a sangue e suor, por quem verdadeiramente faz e não  aparece na mídia.

*Liliana Peixinho – DRT 1.430 – Jornalista, Ativista e Educadora Ambiental- Fundadora dos Movimentos Independentes AMA e RAMA www.amigodomeioambiente.com.br

Yuri Almeida

AGECOM

Com a realização da 1ª Conferência de Comunicação Social, a Bahia desponta no cenário nacional como referência no debate sobre políticas públicas no que tange a comunicação. Na plenária final foram aprovadas mais de 35 resoluções acerca da temática, em âmbito estadual e nacional, após três dias de intensos debates.

No total foram oito plenárias territoriais, que envolveram mais de 2 mil representantes de diversos setores da sociedade baiana. Em cada etapa solidificava-se a concepção de que a comunicação é um direito e democratizar os meios de comunicação é essencial para o fortalecimento da democracia. Não resta dúvidas de que só com a mobilização social as 35 resoluções serão efetivadas. A Conferência foi apenas o primeiro passo, para atingir tais objetivos a caminhada será longa.

Penso que os pontos abaixo foram os mais significativos durante a Conferência:

- ruptura com 16 anos de silêncio no que tange os debates sobre comunicação;
- a importância da criação da Secretaria Estadual de Comunicação e implantação do Conselho Estadual de Comunicação, com caráter deliberativo, para gestão da política de comunicação do Estado da Bahia;
- reformulação, pelo Congresso Nacional, da legislação de radiodifusão comunitária desburocratizando os tramites legais para abertura dessas rádios.
- ampliar as verbas de publicidade para as mídias alternativas da capital e do interior baiano;
- criação de uma rede pública de comunicação, que envolva TV, rádio, internet, impresso e afins;
- os produtos comunicacionais devem atentar para as particularidades territoriais;
- criar Conselhos Territoriais de Comunicação para dialogar com os poderes públicos acerca da comunicação;
- Implantação de rádios e TV`s comunitárias;
- utilizar as novas tecnologias de informação e comunicação na relação ensino-aprendizagem, bem como capacitar professores, facilitadores, agentes comunitários para o uso dessas ferramentas e melhorar a qualidade dos equipamentos das escolas e levá-los aos centros comunitários, sindicatos e afins.
- a educomunicação, artecomunicação são metodologia fundamentais para o ensino na sociedade da informação;
- garantir acesso gratuito a banda larga em todo Estado;
- a transformação dos Centros Digitais de Cidadania em “Centros de Comunicação Pública”, formado por equipe multidisciplinar (artistas, professores, comunicadores…) para compartilhar conhecimento, sendo a gestão compartilhada com a comunidade, visando adequar as atividades dos Centros mais próximas das pessoas e de acordo com a realidade local.
Quem paga a conta é o poder público e/ou iniciativa privada. Além disso, esses Centros de Comunicação Pública devem ter equipamentos multimidiaticos para fomentar a produção da comunidade. A idéia é a criação de um portal colaborativo para veiculação dos produtos realizados nos Centros e que as escolas, associações comunitárias/moradores e afins utilizem também os Centros para educar/profissionalizar.

Por fim, o Movimento Pró-Conferência Nacional de Comunicação realizou reunião histórica aqui em Salvador, onde foram definidas as estratégias para a tirar o evento do papel. Senti falta dos blogueiros (veja como foi fraca a cobertura da blogosfera aqui e aqui), cidadãos-repórteres e pesquisadores de comunicação no debate. A transformação se faz na rua camaradas…

*crédito da foto: Robson Mendes / AGECOM

Diploma

Yuri Almeida

Primeiro quero deixar claro que esse papo de que só existirá jornalismo de qualidade com profissionais formados em universidades/faculdades é uma fraude. O que irá garantir a qualidade do jornalismo é a formação cidadã do profissional e veículos de comunicação voltados para o interesse público, onde a notícia seja o ponta pé inicial para o debate público e não moeda de troca no mercado publicitário ou aquilo que separa os anúncios, como diria o Chatô.

Dito isso, lutar pela defesa do diploma é defender um dos campos sociais mais importantes da contemporaneidade: o jornalismo. Estou aqui a defender não jornalismo canalha do mainstream midiático, mas aquela atividade profissional, talvez utópica, obsoleta, ultrapassada, onde o jornalista é um agente social e cria uma forma específica de informação organizada e portanto, uma forma de conhecimento.

O jornalismo é um campo social, de acordo com o sociólogo francês, Pierre Bourdieu, que compreende campo como o funcionamento das sociedades complexas, ou seja, suas regras, estruturas hierárquicas, funções e posições. O campo também é o palco de luta entre os atores do microcosmo visando se apropriar de um capital (seja ele simbólico, financeiro) do campo.

Resumidamente, cada campo corresponde à um habitus e estabelece os valores e formas de acesso (o diploma para ingressar na atividade jornalística, por exemplo) ao campo. Não sou tão otimista como os coleguinhas da FENAJ, que escrevem no manifesto:

“A manutenção da exigência de formação de nível superior específica para o exercício da profissão, portanto, representa um avanço no difícil equilíbrio entre interesses privados e o direito da sociedade à informação livre, plural e democrática”.

Vocês poderão ver o meu nome no abaixo-assinado, não porque concordo com a tese acima, tendo em vista que encontrar o equilíbrio entre os interesses privados e o direito da sociedade informação livre depende muito mais sistemas de responsabilização dos media (MAS – de Media Accountability Systems) para lembrar do Bertrand, que propunha códigos de conduta, a informação e crítica sobre os media, a investigação científica, os conselhos de Imprensa, a alfabetização mediática para monitorar e elevar a qualidade dos mass media, mas porque acredito no jornalismo como profissão, produção de informação e conhecimento.

E o diploma nesta história é o passaporte para o ingresso campo social, a sua defensa é sinônimo da reserva de mercado, porém, simbolicamente, a movimentação nacional pela defesa do diploma revela a agonia por que passa jornalistas e jornalismo com as novas tecnologias de informação e comunicação e a liberação do pólo emissor. Nunca a atividade jornalística fora tão criticada. Nunca os jornalistas foram tão desnecessários em tempo de web 2.0, blogs e cidadãos-repórteres.

Isso é ótimo, porque força os apáticos jornalistas a lutarem pela legitimidade da profissão. Tal luta trará consigo também o debate sobre as escolas de jornalismos: Qual o papel das escolas? Investir na crítica ou na técnica? Priorizar a formação para o mercado ou apostar na formação humanista do jornalista, para que este entenda-o e se posicione diante dele?

E o mercado? Poderá casar qualidade com rentabilidade? Apostará na reciclagem constante da sua equipe ou ainda é melhor três estagiários a um profissional?

“Depois de 70 anos da regulamentação da profissão e mais de 40 anos de criação dos Cursos de Jornalismo, derrubar este requisito à prática profissional significará retrocesso a um tempo em que o acesso ao exercício do Jornalismo dependia de relações de apadrinhamentos e interesses outros que não o do real compromisso com a função social da mídia”, diz o já citado manifesto da FENAJ.


Campanha pelo diploma na Bahia

Aqui em Salvador, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado da Bahia – SINJORBA está a organizar um Ato Político da Campanha em Defesa do Diploma de Jornalista, da Regulamentação Profissional e à Obrigatoriedade de Formação Superior para o Exercício da Profissão.

O ato político acontecerá hoje, as 18h30 no Auditório da OAB-Bahia,Fórum Teixeira de Freitas, Piedade.

A motivação do ato

O Supremo Tribunal Federal (STF) está prestes a julgar o Recurso Extraordinário (RE) 511961 que, se aprovado, vai desregulamentar a profissão de jornalista, porque elimina um dos seus pilares: a obrigatoriedade do diploma em Curso Superior de Jornalismo para o seu exercício.

Yuri Almeida

A comunicação é um direito e não existe democracia sem a democratização dos meios de comunicação. Estas foram as duas “macro-teses” defendidas na Plenária de Comunicação de Salvador, etapa preparatória para Conferência Estadual de Comunicação, a ser realizada de 14 a 16 de agosto, na capital baiana.

Vale ressaltar que a Bahia é o primeiro Estado do Brasil a realizar a Conferência de Comunicação.

O evento, que fora realizado ontem, na Escola Parque, na Caixa D`Água, reuniu 662 representantes de movimentos sociais, ONG`s, partidos políticos, sindicatos, terreiro de candomblé, comunicadores e muitos estudantes dos territórios da Região Metropolitana de Salvador e do Recôncavo.

O grupo teatral “1 de maio” abordou a relação da política com rádios comunitárias, quase sempre de dominação ou apropriação das rádios por agentes políticos em busca de “voto” e/ou capital simbólico.

Grupo teatral 1 de maio

A mesa de abertura contou com a presença da presidente do Sindicato dos Jornalistas da Bahia (Sinjorba), Kardé Mourão, do presidente do Conselho Estadual de Cultura, Albino Rubim, representante do Sindicato dos Radialistas e Publicitários da Bahia, Everaldo Monteiro, André Araújo, representante da Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação, secretário de Comunicação do Estado, Robinson Almeida e do representante do GT Comunicação, Giovandro Ferreira.

Mesa de abertura

Ambos destacaram a importância do debate para a construção democrática de políticas públicas para a comunicação, visando a promoção da cidadania e a inclusão social. Outro ponto abordado fora a “ativação” do Conselho Estadual de Comunicação, que já existe em lei e no papel continua.

Como a comunicação e as novas tecnologias podem ser apropriadas objetivando a cidadania e a transformação social fora a tônica do eixo temático Cidadania e TIC`s, do qual participei e fui eleito representante para a etapa estadual. Sivaldo, do Intervozes e Fabiana do CMI e Ponto de Cultura fizeram o papel de sensibilizadores comentando software livre, TV Digital, liberação do pólo emissor e as reconfigurações no fluxo comunicacional (um-todos para todos-todos), cultura digital…

Entretanto a turma do Grupo de Trabalho (GT), formado basicamente de estudantes, puxou o debate para a profissionalização, a necessidade na mudança curricular nas escolas para capacitar os alunos no que tange as novas tecnologias e linhas de crédito para fomentar a compra de computadores por pessoas de baixa renda.

Sinceramente, não esperava grandes debates neste GT, a começar pela quantidade de inscritos para o eixo temático. Enquanto Políticas Públicas de Comunicação formou cinco salas com 30/35 pessoas em cada uma, Cidadania e Novas TIC rendeu apenas duas salas com 25 na nossa e 20 na outra.

Além disso, cabe lembrar que a Bahia ocupa a 20ª posição entre os 27 estados brasileiros no ranking de acesso à web. Na Bahia, de acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios (Pnad), 87,1% dos baianos com idade acima de 10 anos não acessaram a internet em 2005. Apenas 12,9% dos baianos com idade acima de 10 anos – 1.443.600 pessoas – tiveram acesso à internet. Logo, era esperado que o centro do debate fosse a inclusão sócio-digital.

Por isso, a proposta principal (cada grupo precisava selecionar apenas um ponto) do GT fora a transformação dos Centros Digitais de Cidadania em “Centros de Comunicação Pública”, formado por equipe multidisciplinar (artistas, professores, comunicadores…) para compartilhar conhecimento, sendo a gestão compartilhada com a comunidade, visando adequar as atividades dos Centros mais próximas das pessoas e de acordo com a realidade local.

Quem paga a conta é o poder público e/ou iniciativa privada. Além disso, esses Centros de Comunicação Pública devem ter equipamentos multimidiaticos para fomentar a produção da comunidade. A idéia é a criação de um portal colaborativo para veiculação dos produtos realizados nos Centros e que as escolas, associações comunitárias/moradores e afins utilizem também os Centros para educar/profissionalizar.

Nos corredores ainda conversei sobre a campanha da FENAJ pela defesa do diploma com o SINJORBA, criação da TV Comunitária em Salvador, jornalismo, blogs (com os novos conhecidos Eliel e Marcos da Cruz) e algumas experiências sócio-culturais envolvendo tecnologia e educação e assinei o abaixo-assinado pela Conferência Nacional de Comunicação. Por fim, aplaudi a palestra do prof. Emiliano José que alertou ao plenário “o jornalismo precisa servir a sociedade e não ao capitalismo”.

Fiz a cobertura via twitter, a Jacy Coelho esteve lá e escreveu um post e a AGECOM fez a cobertura da Conferência.

*Fotos do Roberto Viana/AGECOM

Yuri Almeida*

Após ler no blog do Sergio Amadeu que a Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou o projeto de lei (PLC) 89/03 que define quais serão as condutas criminosas na Internet, não tive como pensar no “o homem unidimensional”, do qual falava Marcuse.

Marcuse argumentava que a sociedade industrial avançada busca eliminar a negatividade, a crítica e a oposição, seja criando falsas necessidades ou utilizando a comunicação/pensamentos contemporâneos para tal. O resultado desta equação seria um universo unidimensional de idéias e comportamento,onde o pensamento crítico é anulado.

Ao restringir a liberdade de expressão na internet no Brasil e impor aos provedores o monitoramento do tráfego nos seus servidores, não implica castrar a teia mundial de sua característica essencial (um universo pluridimensional?). Novamente, Marcuse sinaliza:

“Uma falta de liberdade confortável, suave, razoável e democrática prevalece na civilização industrial desenvolvida, um testemunho do progresso técnico”

Amadeu explica que “os exageros que constam do projeto podem colocar em risco a liberdade de expressão, impedir as redes abertas wireless, além de aumentar os custos da manutenção de redes informacionais. O mais grave é que o projeto apenas amplia as possibilidades de vigilância dos cidadãos comuns pelo Estado, pelos grupos que vendem informações e pelos criminosos, uma vez que dificulta a navegação anônima na rede. Crackers navegam sob a proteção de mecanismos sofisticados que dificultam a sua identificação.O pior. A lei implanta o regime da desconfiança permanente. Exige que todo o provedor seja responsável pelo fluxo de seus usuários. Implanta o “provedor dedo-duro”.

André Lemos comentou em seu blog que este fato “aponta para uma das mais perigosas ações em jogo hoje na internet: a quebra da neutralidade da rede”.

E agora turma? Fomos extremamente eficientes na campanha do Firefox 3. Será que podemos fazer um barulho semelhante, ou ainda maior?

* Yuri Almeida é jornalista e edita o blog Herdeiro do Caos

Yuri Almeida*

Semana passada fui questionado por um amigo jornalista, do tempo da máquina de escrever, sobre quais ferramentas/conhecimentos devem ser incorporados ao habitus jornalístico para obter “sucesso” na web.
Penso que a tarefa revolucionária para aqueles que já estão ou estão a chegar na profissão, tendo em vista mudar o “fazer” jornalismo na internet passa por três pontos: ser, produzir e relacionar.

“Ser” diz respeito à compreensão do papel que o jornalista desempenha na sociedade, o de mediar e construir a esfera de visibilidade pública, bem como o poder que esta atividade possui (nenhuma novidade até aqui, mas ainda ouço coleguinhas de profissão afirmarem, por exemplo, que basta o controle remoto para democratizar a comunicação). “Produzir” implica conhecer as novas tecnologias como blogs, RSS, podcast, linguagens de programação, softwares de edição para elaboração de conteúdos multimídia (texto, som, vídeo). Por fim, e o mais importante, é o relacionamento com o público, isso porque o leitor não apenas está no controle e decide a forma que irá consumir as informações, como também anseia em participar da produção de conteúdo.

Sem querer me filiar aos apocalípticos, mas a cultura do “faça você mesmo!”, potencializada pela internet e a liberação do pólo emissor coloca na berlinda o papel do jornalista como mediador/tradutor da sociedade e suas complexidades. Entretanto, não pretendo afirmar: o jornalismo/jornalista entrará/ão em extinção, mas urge repensar o “relacionar”.

A mediação jornalística baseia-se em recortar fragmentos da “realidade” e apresentá-los aos receptores, em um sentido mais conectivo (realidade – público) do que dialógico. Essa mediação dialógica é a premissa essencial para o ciberjornalismo.

“(…) Parece fundamental que seus jornalistas desejem ser, antes de tudo, mediadores; que não se proponham à pretensão de preparar, manipular ou guiar as pessoas tampouco em “construir a verdade”, mas tenham como premissa encorajar o diálogo entre diferentes grupos sociais”. (BRAMBILLA, 2005, pg. 55).

A liberação do pólo emissor gerou uma plurivocalidade, que pode ser conceituada como “efeito conversacional”. Consequentemente, a esfera de visibilidade pública é ampliada, uma vez que surgem novas vozes e nos espaços para o debate. O professor Marcos Palacios acredita que este fenômeno cria novas oportunidades para o jornalista se “encaixar” no mercado, isso porque “o jornalista é um agente social e cria uma forma específica de informação organizada e, portanto, uma forma de conhecimento”.

Ana Brambilla diz que “o jornalista da web passa a ter como tarefa central juntar idéias e lhes dar um formato agradável à audiência. A integração de público e profissionais de imprensa desmitificaria o jornalista como um propagador de pontos de vistas soberanos instituindo-o como alguém que consolida uma informação que vem do público, a que se acrescenta a importância que o jornalista assume no estímulo à discussão pública de pautas com diferentes enfoques” (BRAMBILLA, 2005, p. 52).

Dessa forma, o jornalismo retorna a sua função clássica de propor temas à sociedade para discussão. A notícia deixa de ser um mero produto, para tornar-se ponto de partida para o debate público.

Estamos preparados para tal?

*Yuri Almeida é jornalista e edita o blog Herdeiro do Caos

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