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O secretário de Cultura Márcio Meirelles está vivendo o seu inferno astral desde que assumiu a função já no início do governo Wagner, pelo que se comenta até hoje, por indicação da belíssima mulher do governador, primeira-dama que não me canso de admirar, chegando a babar, quando vejo suas fotos, lá dela, nos jornais (a Fátima bem que poderia estar hoje dando um colorido maior no BBB9, já pensou?), mas aí é outra história e voltemos ao cerne da questão.
Não conheço bem o secretário Márcio Meirelles, mas lembro de uma raríssima vez que falei com ele, de forma rápida e não lembro onde – isso bem antes dele se envolver com política partidária e com gestão pública – e me pareceu um cara centrado, educado, sem vaidade. Hoje todo mundo que conheço – e pode acreditar que virou uma unanimidade – que atua na área cultural, diz que ele foi tomado pela síndrome da mosca azul. Não acredito. Acho que deve ser intriga, inveja, queixume.
Nunca escrevi a respeito do assunto, por não levar a sério as críticas que ele recebia; por saber que todos aqueles que não estão sendo beneficiados pela Secretaria da Cultura só têm mesmo queixas a fazer. E, durante todo este tempo venho tentando mais observar que imiscuir. Ocorre, entretanto, que aquilo que as pessoas vinham falando, a cada dia encaixa-se como uma peça do mosaico.
Agora mesmo recebo email enviado por um produtor cultural – diga-se, de passagem, que sempre atuou na esfera privada; nunca recebeu benesses do carlismo, nem do robertismo, sequer do lomantismo, nem do soutismo e muito menos desta administração wagneriana. O que o homem contrariado, relata, da falta de ação da Secretaria de Cultura, é de preocupar todos nós que cuidamos, nem que seja na base da crítica ou sugestão, da cultura baiana.

menino em contra luz, zazo guerra
O missivista pergunta: “O que será que está acontecendo entre as paredes dos organismos gestores da cultura baiana?”. E ele se mostra bastante preocupado, citando a saída do gestor do Fundo de Cultura, Paulo Henrique de Almeida. Parece que ele e toda sua equipe foram pressionados, assediados moralmente e postos para correr. O mais preocupante é que o novo gestor passa a ser o chefe de gabinete de Márcio Meirelles, e não é tampão. Chegou para ficar.
Conversei com um jornalista que já trabalhou com Márcio Meirelles e pedi sua opinião. O homem me disse na lata:
- Tô fora! Me inclua fora desta.

ferry e fátima.jpg +ivete.web
Procurei um artista plástico que me disse que o secretário faz certo quando tenta acabar com as benesses que somente eram conseguidas por um grupinho ligado ao carlismo. Desse grupo eu já tinha ouvido falar. Era sempre o mesmo que conseguia verbas para fazer peças, expor, etc. Pelo que me diziam até mesmo o Fazcultura funcionava na base de cartas marcadas. O mesmo artista plástico salientou que o erro do secretário é que tirou um e botou outro. “Ou seja: continua-se a mamar nas tetas, mas com renovação carismática”, riu o expressionista.
Acho que o secretário para sair do seu inferno astral – e eu continuo acreditando que ele está mesmo querendo fazer o bem, sendo um paladino da justiça e que devem estar colocando cascas de banana em seu caminho – deveria vir a público explicar a mudança drástica no Fundo de Cultura e em tantos outros órgãos que vêm sendo abalados gradualmente. Dizer qual o objetivo final das ações de retaliação, banho-maria, geladeira, esquecimento, limbo ou degolas.
.O secretário está ficando cada vez mais só. Foi sintomático, durante a festa da posse do poeta e dramaturgo Antonio Lins, na presidência da Fundação Gregório de Mattos, na semana retrasada, no Centro Cultural da Câmara dos Vereadores, quando ele chegou e ninguém, nenhum intelectual ou artista deu bola. Não teve direito a falar. Entrou mudo e saiu calado. Não recebeu nem um tapinha nas costas. Parecia que estava com lepra. Mas, confio que o secretário deve ter um objetivo em prol da cultura baiana. Não é possível que não tenha ou que queira só tomar e dominar os espaços, como garantem seus detratores.
Tanto que acabo de deletar os emelhos acusatórios. Só quero ver.
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Jolivaldo Freitas é escritor e jornalista. e-mail: jolivaldo.freitas@yahoo.com.br
Publicada em A Tarde
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A cultura baiana indo para o ralo
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Jolivaldo Freitas
Deveria ser preocupação de todos os baianos o futuro da nossa cultura. Não estou falando de Axé, pagode ou Rock, que são perenes, dentro do seu nicho de interessados; e muito menos do folclore para atrair turistas. Digo da cultura que envolve as artes plásticas, o teatro, a música erudita e a literatura. O problema é que os principais intelectuais e artistas, que moldaram o perfil da baianidade, estão indo para outra dimensão.
Com a perda de Jorge Amado, Carybé, Calazans Neto, Smetak, Lindenberg Cardoso, Glauber Rocha, Leão Rosemberg e outros, e com o encanecer de personagens como Dorival Caymmi, a Bahia vive hoje a perspectiva de contar apenas, para se situar no panteão da cultura brasileira, apenas com Caetano, Gil, João Gilberto e mais um punhado. É pouco. E não representa o que se produz em termos culturais pela Bahia. É uma dependência nefasta e temos de implorar aos céus para que tenham vida longa.
Pode-se dizer que a Bahia não tem novos elementos que possam representar seu status cultural? Claro que não. Aqui se produz. Temos pessoas elaborando excelentes trabalhos em artes plásticas, literatura, música erudita, música popular, cinema, vídeo e fotografia. Então qual o motivo delas não serem conhecidas, como o foram os grandes criadores surgidos a partir da metade do século passado?
A questão é que, antes, os midiáticos tinham compromisso com a cultura baiana. Exportávamos não só atores, mas criadores, diretores, pintores, tapeceiros, músicos e escritores. Hoje o que se vê é a absoluta falta de compromisso com a cultura local, com raras exceções. Daí que não se vê nos programas de jornalismo/entretenimento, as exposições de arte, por exemplo. As TVs, veículos de maior penetração, não criam ícones culturais, nem mesmo na Axé. Quando o artista fica famoso, por um motivo ou outro, aí sim, ganha espaço.
Mesmo as boas iniciativas das empresas que apóiam a cultura, ficam a dever. Não têm cobertura (eu não lembro de nenhum escritor que tenha ganhado um prêmio e sido entrevistado num programa). Por falta de um marketing agressivo entregam o prêmio e tudo acabou por aí. Falta massificar o nome do ganhador e capitalizar com isso. O cara ganha e volta ao ostracismo.
Com isso não criamos novos nomes. O povo, mesmo a parte culta da população, não conhece quem cria, escreve ou produz. E temos verdadeiros gênios em todas as áreas. A Bahia é um dos três estados brasileiros onde se produz mais e onde a cultura tem relevância. Mas, não podemos culpar apenas a mídia eletrônica. Se nossos famosos escritores e músicos tivessem a generosidade de Jorge Amado, que usava da fama para ajudar a quem tinha qualidade, com certeza nossos campos seriam mais floridos. Lembrando que cada vez que a mídia deixa de revelar talentos, está perdendo personagens, até mesmo para sua própria degustação.
Tempo bom em que andar de puteiro em puteiro fazia para bem a saúde
Jolivaldo Freitas
Quem é de hoje não consegue entender ou visualizar uma Salvador, onde se podia andar nas ruas altas horas da madrugada ou mesmo dormir no banco da praça, caso perdesse o ônibus - pois ônibus só circulava até as dez da noite e quem perdesse só conseguiria outro às cinco da manhã -, sem ser molestado, não sofrendo assalto ou qualquer tipo de agressão. Pelo contrário, tinha sempre alguém que encostava e perguntava se estava tudo bem, se precisava de alguma ajuda. Era uma cidade civilizada. Ladrão, quando tinha, era ladrão de galinha e todo mundo sabia o nome. Somente as fofoqueiras de plantão, que madrugavam pata tomar conta da vida dos outros é que infernizavam. Lembro de seo Callado chegando em casa com o sol raiando, se arrastando de bêbado e feliz, levando ramalhetes de flores, compradas nas Sete Portas, para dona Railda.
E as fofoqueiras dizendo:
- Coitada de dona Railda. Não merece um marido vagabundo e sem-vergonha assim.
Mas, ela chegava, recebia as flores, fingia contrariedade, tirava a roupa suada do marido e só Deus sabe o que acontecia depois. Ela estava sempre com um sorriso no rosto e nunca ligou para fofoca. Callado, hoje, fica pescando siri na Ribeira. Dona Railda já se foi, coitada. Mas foi numa boa.
Daí que a maior diversão para a garotada, nesta cidade que era uma imensa província, e para os marmanjos de todas as idades, era freqüentar os bregas no centro e na Cidade Baixa. As noites, principalmente nos finais de semana, eram agitadas, com o vai-e-vem dos homens em busca de uma saia, um par de pernas, um aconchego. O pessoal andava de brega em brega, para ver as novidades e não repetir mulher, pois aí já virava “compromisso”. Se o cara fosse para a cama três vezes com a mesma mulher ela já virava sua “amante” ou “favorita” e quando ele chegava, ela saia do colo de qualquer um, em posição de respeito. Mas, também, ai dele se procurasse outra mulher da casa. Era passível de levar uma Gillete na cara.
O pessoal andava, evitando sujar o terno de linho branco, de um ponto a outro. Saia da Gamboa e ia para a Montanha; da Montanha para a Conceição da Praia, da Conceição da Praia para a Nossa Senhora da Ajuda e outros. Os bregas mais famosos eram o Maria da Vovô, o Meia-três e um da Gamboa que não lembro o nome e outro lá na Gameleira. Também tinha puteiro para todo tipo de bolso. Quem tinha grana, dava uma passada antes no Varandá, para ouvir música e comer bem antes do lufa-lufa. Ou ia para lá depois do esbórnia. Quem não tinha lá essa grana toda corria o risco no Maciel ou na Ladeira da Misericórdia e Ladeira da Montanha ou na rua do Aliança. Tabaris era coisa de luxo e para poucos, tanto que tinha de estar trajado a caráter. O lugar era tão bom de música, comida, bebida e prazer que as próprias putas quando fechavam o negócio iam para lá se divertir.
O movimento intenso do vai e vem entre as buates, como a Cloc e o Anjo Azul ou cassinos, era determinante para saber das novidades: quais as casas que estavam com meninas novas. Qual a francesa que tinha chegado, qual a argentina que foi contratada ou uma polaca, sendo nestes tipos as mais procuradas. E cada novidade custava os olhos da cara e os jovens que viviam de mesada, de arranjos ou de biscates, só podiam olhar, enquanto tomava um Cuba Libre com bastante gelo para refrescar a cabeça. Era tudo mais simples.
Jolivaldo Freitas
O Estado tem obrigação de oferecer educação gratuita e de qualidade. É para isto que os trabalhadores brasileiros pagam impostos de forma direta e indireta. Na prática não é o que acontece. A escola pública está cada vez pior, e não tem adiantado criticar, denunciar, dar dichote, mostrar, ou chamar a atenção. A educação no Brasil é das piores do mundo (temos 17 milhões de analfabetos). Nossos professores não estão qualificados, e os alunos entregues na mão de Deus, quando deveriam estar sob a tutela, a batuta, o giz ou a lousa (quadro negro) do mestre.
O professor está ruim. Quem o coordena também não tem aptidão e aqueles que deveriam cuidar do sistema passam ao largo. Em busca de algo melhor é que os pais optam pelas escolas particulares. Mas, estas também se equivalem, hoje, às escolas públicas. Todas niveladas por baixo.
Houve um tempo, antes dos anos 60 do século passado, que estudar em escola privada era ser classificado de burro. Lembro dos alunos do Iceia pirraçando os colegas de uma escola particular. Quando os identificavam pelo escudo, gritavam das janelas: “Colégio Anísio Melhor – Entra burro e sai pior”. Era uma vergonha. Todos sabiam que ali estavam garotos que tiveram dificuldades em passar de ano e os pais procuravam uma facilidade, mudando-o para uma escola particular. Tanto que o lema era: Pagou, passou!
Hoje são raros os colégios particulares que têm o respeito dos alunos e dos pais, por sua excelência. Os pais estão enlouquecidos. A média no conjunto das salas – que serve para monitorar a qualidade do ensino e também o talento do professor – está abaixo da crítica. Os professores se queixam que os alunos não prestam atenção. Os alunos se queixam da falta de paciência dos professores, que nem bem explicaram um assunto e já mudam para outro, por terem de cumprir a agenda.
Os pais estão pagando caro. Tem colégio que chega a mais de mil reais. Por não verem resultado, pais que vão se queixar aos coordenadores de curso ou ao diretor, são vistos como pessoas chatas. Conheço um caso emblemático, de mãe que procurou a coordenadora da escola para dizer que achava estranho o fato do seu filho que gostava da matéria, estar mal em Matemática. Também, denunciava que a média da sala era sofrível, não se tratando de caso isolado. Os alunos falavam da negativa da professora em repetir o assunto. A coordenadora disse apenas: “não acredito!”. Sequer foi tratar do assunto. Isso mostra que colégio virou uma burocracia. Não é mais um templo de aprendizado. É um rally.
Com isso os pais estão buscando uma terceira via, que é o reforço escolar, antigamente batizado de “banca”. Eles pagam caro pelo colégio e gastam mais ainda com o reforço. Prova que a escola não cumpre sua função. Para a classe média, que tem seus filhos em escolas privadas – escola pública é atraso de vida -, trata-se de um gasto injusto. Culpa da falta de profissionalismo das escolas, que viravam meros caça-níqueis. O Pior é que não se sabe de uma ação concreta contra esta calamidade, por parte do Conselho Estadual de Educação. Como o problema está não pode ficar. A Educação está uma droga. E toda droga é prejudicial, mesmo quando se trata de remédio.
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Publicado originalmente em A Tarde
Jolivaldo Freitas
Os moradores das ruas Marquês de Caravelas e Lord Cochrane, na Barra Avenida – sou do tempo em que se dividia a Barra em duas e a Graça e a Vitória eram áreas até certo ponto longínquas, imagine! -, estão como o diabo gosta. Andam nos cascos, bufando, trincando os dentes e mostrando os caninos. Esperam apenas que o empresário do ramo da construção civil e conselheiro do Sindicato da Indústria da Construção Civil, mais conhecida pela sigla Sinduscon, decida fazer uma visita ao prédio que está construindo no bairro. A idéia que é sussurrada pelos playgrounds, escadas, saídas de incêndio e nas portarias mais recônditas é de lhe aplicar um corretivo. Nada que machuque.
Apenas uns bons cascudos, ou coques, como dizia minha avó, bem no alto do seu (lá dele) cucuruto; coisa que o pai ou a mãe ou a madrinha deveriam ter feito quando criança, para evitar que se transformasse numa pessoa incivilizada, como se transformou, e que não respeita os mais velhos, conforme desabafo de um ex-combatente da Segunda Grande Guerra, um dos últimos heróis brasileiros de carne e osso, mais osso do que carne, que de trabuco na mão diz que não consegue dormir.
O pessoal odeia o construtor Marcos Galindo, da MGL, porque o homem está construindo um edifício, de nome pomposo de Barra Sky, embora seja um quarto e sala, justamente na esquina das duas ruas. Como os locais, os nativos, os moradores, em sua maioria são idosos que ainda ouvem bem, não conseguem dormir, a antipatia é geral e irrestrita. Ocorre que já às sete horas da manhã os empregados do homem iniciam o trabalho de construção, começa o inferno em sua sucursal.
Primeiro toca-se uma sirene informando que chegou a hora. Neste instante o velhinho, que foi oficial na contenda do meio do século passado, já levanta no susto, achando que é uma blitz dos alemães; um ataque aéreo; e corre para debaixo da cama, usando-a como casamata. Sorte que os filhos toda noite retiram as balas da carabina. O homem ainda é ágil e já cai dando tiros e gritando palavras de ordem.
Mas, ele fica mesmo mais louco que os outros moradores, é quando a britadeira – alguns dizem que é uma máquina de cortar azulejo chamada Maquita – começa a atuar, justamente depois da sirene, por volta das sete horas e cinco da manhã, para dar uma hora exata. Parece uma salva de metralhadora. O ex-soldado se esconde atrás das cortinas do apartamento e fica tentando descobrir de onde vem o inimigo. Nesta hora todo mundo, num raio de 500 metros já acordou.
E assim prossegue a obra. Isso já vindo de quase dois anos, sem que o diretor do sindicato dê o exemplo e respeite pelo menos o silêncio no início da manhã, deixando o povo com um pouco de paz. Mas, os cascudos dele estão garantidos. Inclusive já circulam fotos escaneadas com a cara dele. Uma senhora que mora bem ao lado vai fazer Vudu. Ela ia comprar um apartamento para a filha, mas desistiu. O seu argumento para a desistência é simples: se o empresário não respeita os moradores do bairro, não dá para confiar numa solução, caso o empreendimento seja problemático e o comprador precise de uma atitude séria e profissional. Ela aproveita e pede à Sucom para dar um basta no barulho produzido pela construção do Barra Sky. Que pelo menos comecem os trabalhos às oito horas da manhã, aos sábados. E que encerrem às 17 horas.
Outro dia eles decidiram que iam executar uma série de atos contra os trabalhadores da obra. Descobriram que eles costumam parar para o almoço antes do meio-dia, e depois tiram uma soneca das boas, dormindo sobre estrados, tijolos, tapumes e areia. Iam todos sair para um panelaço na porta da obra. Alguém com lucidez, disse que os operários não tinham culpa, e que seria melhor irem fazer panelaço, numa madrugada qualquer na porta do dono do prédio. Ele que se cuide. Povo da Barra anda catando seu endereço. E o povo da Barra é descendente dos índios bem antes da urbanização da cidade. Eles são tão brabos que comeram assado, e bem passado, um monte de padres, arquitetos e urbanistas portugueses. Para fritar incorporador é só um passo.
Eu sempre fui meio burrinho, não é coisa de agora, e nunca entendi direito essas coisas de descoberta do Brasil. Lembro que certa vez, acho que foi ainda nos tempos em que frequentava a a Escola Luiz Tarquínio, na Boa Viagem ou talvez tenha sido mesmo na banca (que hoje é chamada de reforço escolar), fiquei abestalhado quando a professora disse que o Brasil fora descoberto no dia 22 de abril de mil e quinhentos. Como fora descoberto se eu sabia que aqui tinha índio quando os portugueses chegaram?
Era uma época em que eu acreditava piamente que Deus criara o homem, portanto não tinha dúvida que Ele, em cada canto, fez uma raça diferente da outra. Para piorar, achava que os portugueses realmente eram raça superior e que os índios, ignorantes, tinham mesmo de ser abduzidos em nome de Jesus, Maria e José e de Dom Manuel, o venturoso.
Em minha cabeça confusa não entendia como é que os portugueses tinham chegado até aqui, enfrentando um mar cheio de serpentes enormes, dragões que cuspiam fogo e principalmente os monstros marinhos, como grandes polvos e enguias, que engoliam as naus por inteiro e ainda chupavam os tutanos dos argonautas. Levei tantos cascudos da professora Naly, que terminei gostando de estudar História do Brasil. Hoje fico fascinado com as viagens dos descobrimentos e ganhei um amor tão grande pelo tema, que fico frustrado por não ser historiador.
Talvez por isso eu seja tão apaixonado pelo Porto da Barra. Quando encosto na balaustrada, ando pela calçada ou piso na areia, sinto-me como se estivesse incorporando o espírito dos descobridores. Revejo o donatário Francisco Pereira Coutinho chegando e com seu jeito frouxo e ficar com medo de descer na praia.
Não sei se você sabe, mas quando ele chegou e viu os índios que esperavam na praia, logo ali naquele canto onde hoje fica o padrão com o brasão da Coroa Portuguesa, bem defronte ao quiosque de artesanato do Instituto Mauá e da barraca de coco de Marco Pólo – por favor não o confunda com o navegador veneziano, que nem parente chega a ser -, começou a se tremer de medo e antes de mais nada fez uma missa dentro do barco, como se estivesse encomendando a própria alma.
Quem quebrou seu galho foi Caramuru, que já estava por aqui há tanto tempo que tinha mais filho que o pajé ou mesmo o cacique Taparica, o mais temido e o mais político da época. O homem desceu acompanhado dos seus bacamarteiros, cheio de roupa com fru-fru e a garantia de uma armadura. Foi levado sob as espensas de Diogo Alvares Correia (que eu teimava em grafar nas minhas provas de escola como da Silva, e levava mais cascudos), que vem a ser o marido de Catarina Paraguaçu e se picou para se esconder em algum lugar que não faço a menor idéia e se li em algum lugar já esqueci, pois minha memória é melhor quando falo de Tomé de Souza. Este, eu sei, chegou aqui em 1549 e com a mesma ajuda de Caramuru, terminou por fundar a cidade de São Salvador e daí passamos a ser responsáveis pela preguiça, pela dança da garrafa, por Carla Perez, pela Axé Music, Pagode, Ricardo Chaves, Esporte Clube Vitória, pela mijada em plena rua, pelo pessoal que invade sinais, por falar alto, buzinar na porta dos hospitais, botar som alto no carro, pelo ônibus parar fora do ponto, isto quando pára; pela falta de empacotador nos supermercados, pelo cara que não dá assento aos idosos nos ônibus, por quem estaciona o carro na vaga de deficientes, e tudo o mais.
Quando me lembro que num dia de hoje o Brasil foi descoberto, vejo um dia luminoso, depois de uma noite cheia de estrelas. Não sei ao certo a hora em que o Brasil foi visto pelos portugueses, mas, tenho certeza que foi lá por volta das dez horas da manhã, pois foi a hora em que nasci lá em cima do Mont Serrat e o dia era bonito. Interessante é que quando falo em descobrimento, não consigo visualizar direito a chegada a Porto Seguro. Aliás, neste local aportaram depois dos portugueses os espanhóis, ingleses e franceses. Porto Seguro, entretanto, foi totalmente dominada, a partir dos anos 80 do século passado, não pelos colonizadores europeus, sim, pelos mineiros, paulistas e goianos. Hoje, para encontrar um baiano por lá, só se for servindo no balcão ou dançando lambada. Até índio, só se encontra nas feiras de artesanato.
Por isso que, hoje mesmo, a esta hora, estarei andando no Porto da Barra e olhando para a barra do mar, para ver se enxergo as almas dos navegantes aventureiros. Quem sabe eles redescobrem e começamos do zero. Mesmo assim, com tantos problemas de dengue, esgotos, violência, PT, e pais que matam os filhos, parabéns para você minha “Terra de Santa Cruz”.
Jolivaldo Freitas é escritor e jornalista.e-mail: jfk6@uol.com.br
Uma pobreza só, este Campeonato Baiano de Futebol. Os “grandes” times parecem um amontoado de jogadores que ninguém sabe o nome. Os jogos são de uma falta de criatividade, como nunca se viu, nem mesmo nos torneios lá do campinho do Mont Serrat, onde jogavam meus tios Adilson e Haroldo Cruz. Um conhecido como Corre-Corre e o outro como Cai-Cai.
Meu tio Haroldo era mais veloz do que Apodi. Meu tio Adilson caia e se queixava mais do que Bebeto. Mas, frente aos elencos de hoje de Bahia e Vitória eles estavam anos-luz. Eram bem melhores – e jogavam de graça em três times ao mesmo tempo: o primeiro, o do coração, era o São Domingos Sávio, do campeonato do Campo do Tupi, que ficava atrás da Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem, onde hoje tem um conjunto habitacional. O segundo era o Piratas, do campinho do Carvoeiro, onde está hoje o Colégio Luiz Tarquínio, na avenida de nome igual. O mais importante, no entanto, acho que se chamava Internacional e a labuta era lá perto do forte construído em 1583 por Van Dorth. Entre uma partida dos campeonatos e outros ainda disputavam grandes jogos no Campo do Sesc, que até hoje resiste nas proximidades do Hospital Santo Antonio, fundado por Irmã Dulce, que, diga-se de passagem, nunca assistiu a uma pelada.
Salvador tinha tanto craque que os jogos na Fonte Nova batiam recordes sucessivos de público, principalmente entre os anos 1960 e os anos 1970. Mas, não era somente Salvador que tinha bons jogadores, alguns dos quais já tinham passagem pela Seleção Brasileira. O interior do estado dava sua plena contribuição. Quem não lembra dos grandes embates entre o Fluminense de Feira e o Bahia; o Bahia de Feira e o Colo Colo de Ilhéus ou até mesmo o folclórico Ideal de Santo Amaro, que de vez em quando pregava uma peça num dos maiores. À época, quem não gostava de futebol, era ruim da cabeça ou doente do pé.
Um BaVi era imperdível, mas, acredito que o ano de 1969 em que o Fluminense de Feira foi campeão pela segunda vez foi o auge do Campeonato Baiano. A decadência começou nos anos 1990 e a pá de cal foi quando o Palmeiras do Nordeste, por coincidência também de Feira de Santana, foi campeão, no ano de 2002, quando tivemos dois campeonatos. Um com todo mundo, menos Bahia e Vitória e outro ao qual se juntaram os dois. Foi época em que as torcidas dos clubes soteropolitanos começaram a xingar de ladrão não só o juiz, mas também o presidente do clube.
Claro que nasci torcendo pelo Bahia (e quem não nasceu?). Todo mundo nasce tricolor e alguns, depois, sofrem uma mutação genética; uma lobotomia ou é abduzido e vira Vitória. Hoje, eu juro, pelo nível de Bahia e Vitória, adoraria torcer mesmo é para o Ypiranga do meu avô, ou pelo Bahia de Feira da minha segunda namorada, e principalmente pelo Galicia que adoro o escudo com a espada de Santiago. Times que nunca vi ninguém dizer que os presidentes enfiaram a mão na burra.
Futebol era coisa tão boa que nós, eu e meu primo por afinidades, Marçal Miranda – importante especialista lá do Pólo Petroquímico, adolescentes lá da Zona Itapagipana, de onde saíram grandes nomes como Xaxa, Alberto Leguelé e Pelezinho, certa vez convencemos o amigo Jorge Borrela, hoje famoso engenheiro de cálculo, a emprestar o radinho de pilha que era xodó do seu pai. Íamos ouvir Bahia e Fluminense, direto de Feira de Santana, quando o aparelho caiu no chão e se esbagaçou. O que fazer? Levamos o que restou para meu pai, o velho Jerônimo, mais conhecido como Bob Nelson, pintudo que era, ou como “herói do sertão”, graças a um programa de rádio que emprestava seu nome. O velho tinha a mania de mexer com eletrônica e era cheio de soluções. Claro que não dissemos de quem era o rádio. Meia hora depois ele nos entrega o equipamento com as peças amarradas com cordão. Colocamos a capa e demos de volta para o dono, pedindo a Deus para que ele não mudasse de estação nos próximos dias. O Fluminense ganhou o jogo com gol de um cara que não lembro o nome.
Futebol já foi emocionante. Hoje o Campeonato Baiano é uma pobreza só. Nem Deus, nem o Diabo. Só perna de pau. Tomara que o Vitória da Conquista ganhe este ano. Nem que seja para fazer algo diferente. O baba no interior do Estado, no Mont Serrat ou no Farol da Barra é mais emocionante
JOLIVALDO FREITAS
A luta pela independência do Tibete, que tem no Dalai Lama seu maior expoente, está sendo sacralizada. Assim como os monges tibetanos sacralizam qualquer coisa que se mova, respire e brilhe. A China, pelo que se pode observar das aparições de seus representantes na mídia, está se expondo cada vez mais. E o mundo começa a admirar a luta dos monges e a chorar os imolados. A China está sendo vítima do seu próprio corpo, consumida por dentro por uma imensa tênia, cujos pruridos ressoam e se espalham fora da epiderme.
A pujança da economia chinesa depende mais e mais dos incrementos ocidentais, seja na dependência de matérias-primas, ou na necessidade de manter ligações on-line com bolsas e mercados, o que traz indesejada exposição da sua filosofia e geopolítica. Os chineses encontram-se agora entre a cruz e a espada.
Querem manter seu mundo em particular, onde os direitos humanos são suprimidos continuamente, enquanto estão sendo pressionados pela chamada economia globalizada, algo impensável para Mao Tsé-Tung.
Ao mesmo tempo, pelo menos neste instante, não sabem se realizam mesmo as Olimpíadas de Pequim com plena participação popular ou se fecham portas e janelas. Os Jogos Olímpicos servem a um país apenas para duas coisas: mostrar seu rico acervo cultural e poder ou para ter revelado suas mazelas. A China quer mostrar que é rica, poderosa e uma vaca de benfazejas tetas para seus filhos. Mas, não quer mostrar o que, embora esteja sendo colocado debaixo do tapete, todo mundo sabe: prende-se e arrebenta qualquer dissidência.
Os monges budistas do Tibete, que de bobos nada têm, sabem que a oportunidade de chamar a atenção para os problemas causados pelo garrote chinês é agora.Momento em que as Olimpíadas estão para acontecer e permite um olhar universal sobre a verdade que os chineses buscam a todo custo encobrir.
Desde que o Tibete foi invadido pela China nos anos 1950, nenhuma oportunidade para mostrar as manchas de sangue nos furisodes laranjas foi tão boa. Se bem que não se pode deixar de observar, mesmo sendo politicamente incorreto, que o Tibete nunca deixou de ser um enclave geográfico e cultural, desde os seus primórdios. O país representa um desafio até mesmo para os valores democráticos conhecidos e contemplados.
É uma teocracia que vai de encontro à modernidade e para quem progresso é pecado (no sentido ocidental de pecados). Ocorre que entre a filosofia secularista tibetana e a prepotência chinesa, o mundo torce pelo primeiro.
O que será que a China quer tomando o Tibete para si? A ocupação da área tem motivação estratégica. Os chineses sabem que o Tibete está no topo do mundo e que dali podem controlar boa parte da Ásia. O que se vê, entretanto, lá do alto e abaixo são atos bárbaros. Mas, os monges estão aprendendo a ser pós-modernos. Aprenderam a sair na porrada. No tabefe. No melhor estilo não-zen.
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Publicado originalmente em A Tarde (Coluna Opinião – 6/4/08





Carta dos leitores