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Quem avisa amigo é  

o verde veloz

o verde veloz

O governador Jaques Wagner precisa prestar mais atenção ao que ocorre  no âmbito de sua Secretaria de Turismo.

A comunidade baiana, e a imprensa em particular, também. Ou o fazem ou se dirão surpreendidos com o resultado da auditoria que o Tribunal de Contas ali fará durante este abril. Ali pode estar um problema gravíssimo, em proporções senatoriais, de malversação de recursos que saem do bolso do contribuinte.

É certo que a gravidade da situação pode ser relevada em analogia com outros tantos abusos congêneres que, por falta de uma imprensa investigativa atuante, passam despercebidos ao grande público. Mesmo no âmbito municipal, a  administração sangra não apenas pela mediocridade governamental que destrói os cofres do tesouro desde ao menos a restauração das eleições diretas para prefeitos de capitais em 1985.  Até hoje deu em nada os processos movidos pela Procuradoria Geral do Município (PGM), que  reclamam a devolução de estratosférica soma – calculada ao redor de 200 milhões de dólares -, que teria sido desviada para o enriquecimento de alguns, sob a liderança de prefeito depois tornado empresário inclusive da área de comunicação radiofônica.

A mesma PGM contém, nos seus quadros, exemplos nada dignificantes  desses abusos contra a bolsa do contribuinte. Pois é dentro dela que se sobressaem absurdos moralmente condenáveis, mas defendidos como “direito adquirido”. Alguns dos seus membros, ajudados pelo silêncio da sociedade e pela subserviência do legislativo,  percebem salários que atingem o teto do funcionalismo público brasileiro, isto é, o mesmo  que ganha o presidente do Supremo Tribunal Federal. Para atuar aqui, numa Salvador encalacrada, esses sortudos retiram em torno de R$ 24 mil mensais, quase o dobro do que ganha Lula.

Eis que assim pode soar como fichinha o trato do dinheiro que entra e  sai da pasta comandada por Domingos Leonelli. Uma simples análise do funcionamento de uma das áreas dessa Secreta ia, a que trata do “turismo étnico”, não sustenta as declarações oficiais de amor ao potencial de africanidade baiana. Não há um projeto executado, uma ação concreta que justifique o volume de recursos orçamentários destinados  à área. Isto porque todos os R$ 80 milhões alocados em 2008 foram “investidos” para custeio da máquina. Leia-se: para que indivíduos da própria secretaria pudessem dar a volta ao mundo, para cima e para baixo, a expensas de todos nós.

Não são poucas as refregas que ativistas sociais do movimento negro  têm tido naquele ambiente, atraídos pelo canto-de-sereia que falava da prioridade de gestão para o setor. A dita “comunidade negra” é a maior prejudicada, agora como antes, por  em seu nome fazerem negócios aqui e alhures, sem que lhe traga nenhum resultado,  ela que é a maior vítima da crise, do desemprego e da violência. Wagner deveria zelar  pelo voto que o elegeu ou poderá, em 2010, chorar o leite derramado.

Fernando Conceição é jornalista e professor da Universidade Federal da Bahia – http://www.portal. ufba.br, fora o pires

Alegria e indigência

**Fernando Conceição

Carnaval e outra vez, como nas últimas duas décadas e meia – com a industrialização dessa festa popular -, quem tem olhos e sensibilidade viu. Foi a repetição do espetáculo daquilo que Maria de Azevedo Brandão uma vez classificou de uma das faces da propalada ‘baianidade’: o lado perverso de convenções naturalizadas no cotidiano das relações sociais dessa porção territorial denominada de Recôncavo, Salvador incluso. Região onde ainda hoje predominam fortes resquícios das tradições escravocratas.

bay busy, alf

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Não apenas os chamados ‘cordeiros’, atividade em vias de sindicalização por espertalhões politiqueiros, são a imagem gritante de uma sociedade zelosa na manutenção de hábitos medievais. Os farrapos humanos pululam em todas as esquinas e desvãos da festa, para o deleite de uma ordem-de-coisas que determina o lugar do branco e do negro, do rico e do pobre, do turista e do nativo. A “terra da alegria” e de “todos nós” dos slogans governamentais convive, de forma conveniente, pari pasu com o chicote (real ou mental) no lombo da maioria.

A afirmação, por vezes orgulhosa, de que “a África é aqui”, registra também o que há de mais horroroso no olhar colonialista do passado: a inferiorização e a brutalização do colono, do serviçal, do escravo. De fato, no circuito da folia, enquanto brilham as estrelas nominadas pela indústria cultural, com seu aparato midiático composto por profissionais que vão de áreas tão distintas como o marketing, jornalismo, “promoters” e grupos de segurança, de um lado das cordas e lá em cima nos camarotes tudo é alegria. O que há de lacônico, lúgubre, nefasto, transita do lado de fora.

thank's, sir-alf

thank's, sir-alf

O Carnaval soteropolitano é a síntese dos nossos contrastes.

É exemplo da clássica microfísica de poder foucaultina, na qual quem pode pisa no que está abaixo ou ao lado. Tais contrastes estão presentes antes e depois do interregno da festa. No regime servil há como se um acordo tácito entre o algoz e a suposta vítima, que aceita servir, às vezes abrindo os dentes (banguela?). O gado humano, pisoteado nas cancelas dos ferry-boats, estádios de futebol, teatros, festas populares, mesmo que pagando ingresso, tudo aceita do nhô-nhô.

prefeitiura-de-aeronautica-camarotes-em-desmontagem

prefeitura de aeronáutica, camarotes em desmontagem

Assim, enquanto os capitalistas da hotelaria, da indústria fonográfica, do comércio de drogas e do turismo sexual vêem seu saldo bancário engordar, os vendedores ambulantes, famílias inteiras à cata das sobras dos foliões, serão citados pelas estatísticas da propaganda oficial como partícipes do saldo econômico gerado nesses dias.

Números diversos, à potência de milhões, serão trazidos em linguagem de economês para asseverar o êxito do evento, que tudo pára e ao mesmo tempo mobiliza. Empresários, intelectuóides da cultura e políticos contabilizarão como lucro o que, em realidade, é a pura indigência de muitos.

out of the party, alf

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**FC é Jornalista, professor da Ufba, e pesquisador-visitante na Universidade Livre Berlim - txt publicado em A Tarde – página dois, em 24 de fev de 09

Wagner e seu xerife
Fernando Conceição*
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Acreditar e crer são os principais verbos utilizados pelo autodenominado “Secretário de Polícia” do governador  da Bahia, Jaques Wagner, na atabalhoada, mas oportuna, entrevista concedida na edição de 8 de janeiro de A Tarde ao repórter Samuel Lima.O conjunto das palavras de César Nunes equivale a uma declaração de guerra contra o que ele chama de “bandidos”. Os quais, pelo seu raciocínio, travam uma luta pelo comando do tráfico de drogas ilícitas na Bahia.

A prerrogativa de declarar guerra é de Estados formalmente instituídos, não de grupos criminosos. Portanto, o governo petista de Wagner deve assumir as conseqüências e as responsabilidades de tal declaração.  A menos que esteja de acordo com o que este diz, na entrevista Nunes passa por cima de Wagner, desacreditando a existência de uma secretaria denominada “de Segurança Pública”, a qual comanda depois de se afastar da Superintendência estadual da Polícia Federal em meio a um escândalo de corrupção em cujo processo aparece o seu nome.

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Pepe Legal, by katiawt

Há um silêncio ensurdecedor dos intelectuais baianos e da Universidade como todo a essa escalada de crimes e exibição de testosterona do Secretário. Fingimos que nada temos a ver com o que acontece à nossa porta.

Nas últimas semanas a reportagem de A Tarde, pelo excelente trabalho dos repórteres George Brito, Helga Cirino, Samuel Lima e outros, tem apurado o quadro da violência em Salvador e sua região metropolitana. O número de homicídios, desde a posse de Wagner, cresceu 94%, para 2.237 mortes em 2008. O escândalo desse percentual denuncia a total falta de controle do governo nesse setor. Em nenhuma outra das quatro grandes regiões metropolitanas do país a política de segurança pública tem resultado tão desastrosa.

Agora o cidadão que paga impostos para merecer tal segurança sabe o por quê. O homem nomeado pelo governador para cuidar do assunto não tem política de segurança alguma. Ele quer e exige o confronto, como deixa claro em sua entrevista. Instila o ódio nos seus subordinados, demagogicamente provocando os mais cautelosos: “Se algum policial estiver amedrontado, me chame para sair junto com ele na rua”.  Foram mais de 100 agentes tombados mortos ano passado no clima de guerra que se instalou na sociedade.

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Por que silenciamos? Fosse uma coligação de “direita” no poder, fosse um Celso Pita, a omissão seria a mesma? Onde estão as Unes, DCEs e outras agremiações estudantis, os sindicatos, a OAB e quejandos neste momento? As greves, passeatas, notas de repúdio, nada disso é necessário? Porque a quase totalidade dos mortos e acusados são do lúpen?

O xerife de polícia quer passar uma imagem de macho. Porém a lógica do seu raciocínio não pode ser tolerada em um Estado democrático de Direito. Se é plausível a existência de uma disputa pelo comando do tráfico, gerando por sua vez o aumento da criminalidade, é inadmissível que o Estado também venha a se equiparar aos bandidos, agindo como um criminoso, assassinando a torto e a direito, incluindo vitimas que nada têm a ver com aquela disputa.

Ao se equivaler aos marginais do tráfico, que desrespeitam elementares direitos humanos, o Estado estabelece uma situação de desigualdade, já que regido por normas institucionais que o coloca numa posição de superioridade jurídica que o torna, pelo contrato social, detentor do monopólio do uso da força. Por isso o cidadão que paga impostos o mantêm, esperando ser por ele protegido. Crer e acreditar são verbos afeitos à fé. Não requerem comprovação. Em sua entrevista César Nunes não oferece ao leitor qualquer dado que comprove as suas afirmações. Somente faz ilações. Confessa a falência da política de segurança pública na Bahia. Prediz e justifica mais crimes. A sociedade que se dane. É o salve-se quem puder, agora como política de governo.

Foi para isso que se elegeu Jaques Wagner?

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*F.C. é Jornalista, ex-presidente da Associação de Moradores do Calabar, pesquisador-visitante na Universidade Livre de Berlin (Alemanha) e professor da Facom/UFBA.

Barack Obama

Barack Obama

E no Brasil, quando vamos ter um(a) presidente(a) da República negro(a)? A pergunta procede porque se hoje há um consenso nas declarações públicas, de cima a baixo, a começar de Lula, festejando a vitória de Barack Obama lá no norte, quantas gerações ainda o Brasil aguardará para sentir o mesmo orgulho visto mundo afora pelo exemplo dado pela vigorosa democracia estadunidense? Quantas décadas ainda serão necessárias para que se geste aqui um(a) candidato(a) com similares back-ground e antecedentes étnicos, para o(a) qual sejam oportunizadas – como os Estados Unidos agora enfatizam – condições iguais e equitativas de disputa política pelo poder real?

É muito gostoso, confortável até, palpitar sobre a vida e a sociedade
alheias. Mas, e a nossa? Os Estados Unidos têm uma minoria negra que
em sua história em média nunca ultrapassou os 13% no conjunto da
população. Óbvio que não foi essa minoria, de cujo percentual deve ser
subtraído um expressivo número de abstêmios e contrários, tão somente
ela a responsável pela consagração de Obama. Ressalte-se, ademais, que
ao se definir “negro” pelos critérios ali adotados estamos falando do
clássico conceito de Oracy Nogueira (Tanto Preto Quanto Branco, 1954),
isto é, considera-se negro quem tem antepassado afrodescendente até a
quinta geração, independentemente do seu fenótipo. Por esse viés,
entre aqueles 13% se inclui inclusive gente que em terra brasilis
seria considerada loira. Tá bom: morena, cravo-e-canela. Aqui já se quis ser
tudo, menos negro, como demonstrou o recenseamento do IBGE na década
de 1980, quando a tabulação dos resultados encontrou mais de 120
auto-definições para os entrevistados que não poderam se declarar
simplesmente brancos.

Nessas plagas, onde os afrodescendentes em toda a história senão
expressiva maioria populacional sempre beiraram pelo menos os 40%, o
critério de definição são os caracteres físicos, aparentes, como
argumentou Nogueira. Na medida em que a sociedade estadunidense, após
o fim da escravidão com a sanguinolenta guerra civil de 1861-65 (há um
ensaio de Edmund Wilson sobre o tema, Sangreira Patriótica, 1962),
construiu nas tensas relações raciais o princípio dogmático “separates
but equals” (separados, mas iguais), os negros vítimas de violenta
segregação e da lei de Lynch foram como “forçados” a se organizar em
auto-defesa, minoria que sempre foram. Essa organização, se
problemática e faccionada, no geral resultou em ganhos. Que se
aceleraram a partir de 1954, depois de a Suprema Corte declarar
inconstitucional a doutrina “separados, mas iguais”. Esse foi o
importante fato jurídico inaugural de impulso ao amplo movimento de
“direitos civis”. O pastor Martin Luther King Jr. e o presidente John
Fitzgerald Kennedy, ambos depois assassinados por fanáticos radicais,
são os emblemas desse movimento.

O que surpreende e deixa o mundo encantado com a eleição de Obama é
justamente a percepção geral de quanto nos Estados Unidos a “raça” é e
sempre foi fator de dissenso, de tensões extremas. A guerra civil ou
de secessão que quase destrói o país, resultando na morte de 2% da
população (em números de 2008 seriam quase 6 milhões de pessoas!)
poderia ser evitada se Abraham Lincoln, presidente de 1861 a 1865
(também assassinado), não se empenhasse em acabar com a escravidão
negra, estratégica opção econômica. De meados da década de 1950, por
mais de 15 anos ininterruptos os EUA foram internamente engolfados por
uma sucessão de batalhas, concomitantemente jurídicas, legais e
civilmente públicas, com mais tumultos de rua e mais assassinatos, a
exemplo de Malcolm-X e do senador Bob Kennedy, provável sucessor do
irmão ex-presidente. Tais conflitos, registrados na imprensa do mundo
todo, num momento histórico externamente delicado das guerras fria e
do Vietnã, levaram o presidente Lindon Johnson (1963-1969) ordenar em
1967 um amplo diagnóstico, feito pela “Comissão Kerner”, por ele
nomeada. Sete meses depois, o veredito que impactou a mentalidade
nacionalista de suas elites: “Nossa nação está caminhando para
dividir-se em duas sociedades, uma negra, outra branca – separadas e
desiguais”.

A ascensão de Obama comprova que as instituições políticas, sociais e
econômicas daquele país de contrastes, por sua elite de mando souberam
ler e compreender o alerta da “Comissão Kerner”. Tomaram a si, com a
implementação de um conjunto de políticas de ação afirmativa, a
responsabilidade de evitar o que predizia tão chocante diagnóstico. A
decisão de evitar o pior não foi fruto de iniciativas restritas aos
sucessivos governos a partir de Kennedy, Johnson e Richard Nixon
(1969-1974), este o que agiu para a efetiva implantação de políticas
para as minorias. Oferecer, principalmente aos negros, meios que
oportunizavam a igualdade de condições para competir em espaços antes
restritos a não-negros, esta é a ciência que está na base da vitória
eleitoral que muda para sempre a história do mundo moderno, pelo peso
e pela importâcia dos Estados Unidos.

Muito teriam a aprender as elites brasileiras de mando, se não apenas
se regozijassem pelo exemplo dado pela democracia americana, há muito
louvada desde Tocqueville. Aos que nos últimos tempos por aqui
excomungaram as ações afirmativas focadas aos negros, apelando para um
suposto (mas desinformado) fracasso de tais politicas naquele país (o
ataque começou com a eleição em 1981 de Ronald Reagan), eis aí a prova
inconteste. ´

Para os recalcitrantes contrários a qualquer tipo de
avanço que resulte na ascensão de negro(a)s brasileiro(a)s a postos de
relevância política ou econômica, sem nisso admitir as sutilezas do
racismo pátrio na exclusão daqueles não apenas dos quadros partidários
importantes, mas da direção de empresas cotadas na Bolsa ou mesmo das
redações dos jornais, para aqueles restará sempre o consolo de que em
nosso país o povo, inclusive a patuléia negra, é pacífico. Que se
matem nos guetos e sejam exterminados nas favelas. Em nossa sociedade, de homens
cordiais, nunca houve ou haverá algo minimamente remoto à guerra civil
ou às batalhas campais daquele país curioso, mas distante, lá de cima
do norte. Afinal, deus é brasileiro.

—————————————————-
* Autor de “Mídia e Etnicidades no Brasil e nos Estados Unidos: Entre
Zumbi dos Palmares e Malcolm X, Entre Folha de S. Paulo e The New York
Times” (2005). Foi visiting scholar na New York Univesity e na
University of California (1998-1999), e bolsista Fulbright (1994) nos
Estados Unidos. Jornalista, é pesquisador-visitante na Freie Universität Berlin (Alemanha), em pesquisa pós-doutoral/Capes.

É hoje terça, 15/07, a partir das 19h30, o lançamento do livro-reportagem SALVADOR DE PERFIS.

No Columbia Bistrô e Choperia, localizado na praça da Rua Fonte do Boi, Rio Vermelho.

O livro é resultado do trabalho de jornalismo-literário feito por alunos do segundo semestre do curso de jornalismo da Facom, sob minha responsabilidade.

Reúne 11 grandes reportagens sob variados temas da soterópolis. Pinte lá para tomar uma cervejinha e abraçar os futuros jornalistas da terrinha.

fernando conceição.

Salvador de Perfis – feito por focas
———— ——— ——— —–

Toquem as trombetas! Abram alas! Preparem o paladar! Metam o pau!

Botei a gurizada do segundo semestre de jornalismo da Facom/UFBA em
campo de março a junho de 2008. O resultado pode ser conferido no
livro-reportagem “Salvador de Perfis”, que será lançado no Columbia
Bistrô e Café (Rio Vermelho, praça da rua Fonte do Boi) nesta
terça-feira, dia 15 de julho, a partir das 19h30

Vai ter cervejada e tira-gosto, como convém aos bons escribas. Cada um
paga a sua, mas Zorba, o dono do bistrô, vai cobrar a cerva a
doisenoventa e o aimpimebatatafrita dobrados a sete míseros reais. Se
cada um dos 31 alunos levarem 10 contos como combinado, a noite
promete ser de esbórnia.

Onze textos escritos ao estilo de jornalismo-literário. Os futuros
jornalistas pagaram do próprio bolso o custo da tiragem inicial de 120
exemplares. Agora, num fato inédito na estória da Facom (é pra entrar
na história), convidam todos para festejar.

Esperamos você para conferir o trabalho deles.

 

em 21/03/2008, Fernando Conceição fernconc@ufba.br, escreveu

COMEÇOU MAL

Conferência de abertura do ciclo “Fronteiras do Pensamento” superdimensiona a importância do iluminismo francês

Fernando Conceição *

Vendida, literalmente, como o grande passo rumo à redenção baiana ao que há de mais importante no pensamento intelectual contemporâneo, a série de conferências denominada “Fronteiras do Pensamento” começou mal na noite de terça-feira, 18 de março, em Salvador.

Bernard-Henry Lévy (BHL), em duas horas de fala no Teatro Castro Alves, pregou como um pastor em púlpito de igreja, embora ele seja judeu. Ele queria convencer a platéia de que o iluminismo francês e a democracia burguesa daí advinda são a pérola da coroa para se pensar o mundo, mesmo nos dias de hoje.

Há uma piada em círculos intelectuais estadunidenses segundo a qual o único intelectual francês que leva a sério um intelectual francês é o próprio. Lévy, que se afirma francês embora tenha nascido na Argélia – e é importantíssimo destacar isso -, aos 59 anos exprime uma fé inabalável à importância da produção intelectual francesa nos destinos da humanidade. O povo argelino, que teve de pegar em armas contra a França numa das mais sangrentas páginas da história anti-colonial africana, que o diga. Em nenhum instante BHL menciona tais fatos, como se nunca tivesse ouvido falar de Frantz Fanon ou Albert Camus.

No evento no TCA patrocinado pelo grupo petroquímico Braskem, BHL se propôs a falar sobre “o papel dos intelectuais” nos dias correntes, a partir de sua visão de mundo. Esta é nada isenta e contém um ranço de uma pretensa superioridade qualitativa. Parte do pressuposto de que a França, ainda hoje, seria o celeiro das luzes – o que, na verdade, os fatos históricos desmentem. Desde pelo menos os anos 1970 a França perdeu o bonde da história, com o seu reacionarismo anti-americano e anti-inglês que a fez um dos últimos países modernos a aderir, por exemplo, à Internet, somente o fazendo depois de 2002 (sic!).

Para ele nenhum intelectual seria realmente sério se em seu trabalho não considerar “4 eventos” que BHL considera fundantes. Passou então a numerá-los, um a um, sem qualquer objetividade – como recomenda o palavrório do intelectual francês. O maior desses eventos seria, coitados de nós, o nazismo. Lévy quer nos asseverar que não seria possível pensar intelectualmente sem entender o genocídio judeu como pilar central no entendimento da humanidade ontem, hoje e sempre.

O segundo, aquilo que genericamente denominou “Maio de 68”. A partir das manifestações de rua de sua Paris, o filósofo francês tentou nos ensinar que teria nascido “um anti-totalitarismo radical e de esquerda” que influenciou o mundo moderno. A “revolução cambojana” – pasmem! – foi enumerada por ele como o terceiro maior evento para se pensar intelectualmente. Nessa fase de sua conferência, então, fez digressões absolutamente absurdas sobre um suposto homem novo cambojano que, evidentemente estudando Lacan e Freud em Paris, embebido pela “lingüística estrutural”, retorna ao miserável Camboja para empreender aquilo que BHL denominou “a primeira revolução realmente séria não da Ásia, mas de toda a humanidade”. É mole, santa?!

Já no anti-clímax de sua pregação, o filósofo disse acreditar que o quarto evento a ser considerado é a tendência contemporânea, segundo ele, de se estabelecer na atualidade uma visão clínica para os problemas sociais. Estaria então instalada a ditadura “da cura”. Na qual a política seria substituída por proposições medicinais ou religiosas.

Ele, revelando uma tendência à quadratura, ressaltou ainda mais “4 eventos menores” que influenciariam a atividade intelectual – ao menos a dele: a guerra da Bósnia, as “guerras esquecidas” em andamento na África ou na Ásia, o confronto com o que ele chamou de “mau Islã”, e a batalha em defesa da universalidade da democracia a partir dos seus fundamentos eurocêntricos.

Tudo isso foi dito sem que o sujeito manifestasse qualquer incerteza, qualquer dúvida, como se o trabalho intelectual se afirmasse por dogmas. Os organizadores do ciclo de conferências, cujas edições anteriores estiveram restritas a Porto Alegre (RS), estão diante de um problema – mesmo que suspeitem do provincianismo baiano. Criaram uma expectativa sobre o evento que uma análise mais acurada sobre o papel de cada um dos palestrantes vindos ou a vir se incumbe de destruir. A lista inclui Wim Wenders, David Byrne, Christo e Jeanne-Claude, Philip Glass, Charles Melman e Luc Ferry – todos lídimos representantes da lógica de raciocínio do hemisfério norte.

asterix-chez-le-bretons-cshym74-flickr.jpgasterix-chez-le-bretons.gifAh, sim, minto: incluíram também Ayaan Hirsi Ali, da Somália. Ela tem cidadania holandesa, onde atua no parlamento, mas atualmente está em asilo político numa universidade dos Estados Unidos, depois de ameaçada por um fanático que assassinou em Amsterdã o cineasta Van Gogh, que baseou um seu documentário nas história de Ali. Ela renega o islamismo – embora a base do discurso que a transformou em vítima dos mulás contenha uma série de mentiras e fantasias, como já revelado no início de 2007 pela revista “The Economist”.

Enfim, como já escreveu o poeta Geraldo Maia, visões colonialistas, travestidas de uma retórica academicista, já não convencerão os que pagam para ouvir idéias. Na estréia do “Fronteiras do Pensamento”, o público fartou-se apenas de jargões antigos sobre uma questionável razão universal do mundo que adviria dos Champs-Élysées.

*Jornalista, professor da Facom/UFBA., onde dirige o grupo de pesquisa Permanecer Milton Santos no programa multidisciplinar de pós-graduação em Cultura e Sociedade.

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